sábado, 2 de junho de 2018

Homilia para o IX Domingo Comum - Ano B

Dt 5,12-15
Sl 80
2Cor 4,6-11
Mc 2,23 – 3,6

Caríssimos, comecemos nossa meditação da Palavra de Deus com uma pergunta: o que diz a Escritura Santa sobre o sábado?
A palavra shabbat significa repouso.

Segundo a narrativa do Gênesis, no sétimo dia, o Senhor Deus repousou de toda a Sua obra, depois de ter visto que tudo que criara era muito bom: “Deus concluiu no sétimo dia a obra que fizera e no sétimo dia descansou de toda obra que fizera. Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, pois nele descansou depois de toda a obra da criação” (2,2s). No pensamento do Antigo Testamento, o homem deveria, portanto, descansar no sábado para imitar o Senhor Deus e para reconhecer Nele o Criador de todas as coisas. O sábado seria o dia de louvar e bendizer o Senhor pela criação. O homem reconhece, então, que ele não é Deus; é apenas criatura: só o Senhor é Deus, o Criador do céu e da terra!

Segundo o Livro do Êxodo, o sábado é santo e deve ser guardado cuidadosamente “como uma aliança eterna” entre o Senhor e os israelitas (cf. 31,13-17). Assim, o sábado não somente celebra a criação, como também a aliança do Senhor Deus com Israel, o Seu Povo escolhido. Para o israelita piedoso, portanto, guardar o sábado é celebrar a Aliança com o Senhor Deus de Israel.

Depois, o Deuteronômio acrescentou ainda um terceiro motivo para que os israelitas guardassem o descanso do sétimo dia: Israel fora escravo no Egito; sabia o peso do trabalho escravo. Guardando o sábado, recordaria o Senhor que o libertara e dava um respiro aos estrangeiros e aos escravos (15,14): “Lembra-te de que foste escravo no Egito e que de lá o Senhor teu Deus te fez sair com mão forte e braço estendido. É por isso que o Senhor teu Deus te mandou guardar o sábado!” (5,15)

Assim, eram fundamentalmente três os motivos para o sábado: (1) imitar o Senhor, dando-Lhe graças pela criação; (2) celebrar a Aliança feita com o Povo eleito no Monte Sinai e (3) ser um dia de descanso e alívio para os que viviam debaixo do trabalho pesado. Portanto, o sábado, no pensamento de Deus, seria um dia de celebração, de descanso e de alegria diante do Senhor Deus.

Infelizmente, desde a volta do Exílio de Babilônia e no tempo de Jesus nosso Senhor, eram tantas as prescrições preceituais sobre o sábado, que sua observância tornara-se, em certo sentido, um fardo, uma tensão! Para que se tenha uma ideia, eis alguns exemplos válidos ainda hoje entre os judeus: no sábado não se pode nem mesmo tocar nos objetos de trabalho, não se pode escrever ou fazer marcas permanentes sobre quaisquer coisas, não se pode tocar em dinheiro, comprar, vender ou falar sobre negócios, não se pode acender fogo, produzir faísca nem acender nada, nem mesmo fazer brilhar um objeto de metal, não se pode cozinhar ou preparar alimentos já cozidos, não se pode tocar instrumentos musicais ou praticar esportes...

No Evangelho, o Senhor Jesus não desvalorizou o sábado. Ele mesmo, como judeu praticante, o guardou. Mas, o Senhor não aceitava que as observâncias de Lei se tornassem um peso, quase que como tendo um valor em si mesmas, desligadas do seu sentido e finalidade, que é levar o homem a Deus e, portanto, fazê-lo viver de verdade. Por isso, Sua sentença lapidar: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27).
E aqui, caríssimos, estejamos bem atentos, pois o Senhor nos dá um princípio que vale para tudo na prática da nossa religião: a finalidade de todas as práticas religiosas é levar o homem à comunhão com Deus e, assim, fazê-lo viver, pois a Vida do homem é a comunhão com o Senhor Deus, a amizade com Ele!

Uma prática religiosa que oprima, que mate, que seja um absoluto em si mesma, não deve ter lugar no cristianismo! O final da narrativa de hoje é trágico e é um triste indicador de uma prática religiosa tornada absoluta: Jesus desafia os escribas e fariseus: “É permitido no sábado fazer o bem ou mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” (Mc 2,4) E aqueles lá não respondem nada! O apego ao preceito pelo preceito os impede de discernir, de compreender com o coração iluminado pelo Senhor. Mas, “ao saírem, imediatamente tramaram, contra Jesus, a maneira como haveriam de matá-Lo” (Mc 2,6). Vede, meus caros, a perversão! Vede a que leva o preceito pelo preceito: a matar! Dar a vida não se pode, fazer o bem não se deve, mas tramar a morte num sábado, é permitido... O Senhor nos livre de uma religiosidade assim!
Mas, atenção: isto não significa esvaziar ou desvalorizar os usos da nossa fé, mas deixar claro que eles não são absolutos! Só Deus é absoluto e tudo tem valor enquanto leva a Deus e, assim, plenifica o homem, imagem de Deus!

Tal realidade aparece de modo muito belo na segunda leitura deste hoje: São Paulo suporta tudo, trazendo na carne da sua vida os sofrimentos de Cristo para que a Vida de Cristo, a Glória de Cristo, obra do Espírito Santo de Cristo, seja manifestada na sua existência humana, em todo o seu ser, corpo e alma e, assim, ele mesmo, apóstolo, torne-se, para os irmãos, instrumento do conhecimento da Glória de Deus que brilha na Face de Cristo! Em outras palavras: tudo vale a pena, todo trabalho, todo sofrimento, todas as privações, somente enquanto nos levam a Cristo Jesus, que nos dá a Vida divina!

Que fique, portanto, a clara lição: nem devemos esvaziar e descuidar dos preceitos e costumes da nossa fé nem, tampouco, absolutizá-los! A religião verdadeira existe para o homem, para a sua salvação, para a sua comunhão com Deus! No entanto, ela não pode ser sob a medida do homem, sujeita aos nossos caprichos, mas sob o querer de Deus! E o critério último é o amor, pois Deus mesmo é Amor!

Mas, fica ainda uma questão: por que nós, cristãos, já não guardamos o sábado? Porque passou a antiga criação, celebrada no sábado judaico; passou também a antiga Aliança com os judeus!
O próprio Cristo nosso Senhor dissera: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento, porque em verdade vos digo que, até que passem o céu e a terra, não será omitido nem um só i, uma só vírgula da Lei, sem que tudo seja realizado” (Mt 5,17s). Pois bem, o nosso Salvador cumpriu em Si tudo quanto estava profetizado na Lei.
No caso do sábado, Ele realizou a nova criação com a Sua santa Ressurreição; Ele estabeleceu a nova e eterna Aliança no Seu sangue no Sacrifício, presente agora em cada Eucaristia; Ele cumpriu plenamente em Si o repouso sabático quando passou o Sábado Santo no repouso da morte. Assim, nos fez ultrapassar o sábado dos judeus e entrar no novo tempo, na nova Aliança, no Dia sem fim, que já não é o sétimo, mas o oitavo, sete mais um, plenitude consumada, o dia que chamamos desde os tempos do Apocalipse de “Dia do Senhor” (cf. Ap 1,10). Por isso mesmo, a séria advertência do Apóstolo: “Ninguém vos julgue por questões de comida e de bebida, ou a respeito de festas anuais ou de lua nova ou de sábados, que são apenas sombra das coisas que haviam de vir. Mas, a realidade é o Corpo de Cristo!” (Cl 2,16)
É triste, depois de vinte séculos de cristianismo, constatar ainda cristãos preocupados em distinguir alimentos puros e impuros e preocupados em guardar o sábado dos judeus... Nunca esqueçamos: tudo isto era sombra, era figura, era profecia que cumpriu-se em Cristo e perdeu sua utilidade! A realidade é o Corpo de Cristo, é a Igreja, Israel da nova e eterna Aliança! E esta Aliança tem como preceito fundamental o amor a Deus e aos irmãos, como Cristo amou! A Ele a glória pelos séculos. Amém.


Sem medo de ser cristão

Meu caro Leitor,
Escrevi este texto em 2009, em Roma, no final de um dia cansativo... 
Coloco-o aqui, porque escreveria cada palavra novamente...

Ei-lo:

Sem medo de ser cristão

Hoje, mais que em qualquer outra época, caminhar pelas ruas de uma grande cidade como Roma é deparar-se com uma incrível mistura de pessoas, raças, culturas...

Caminho por Roma, tomo seu metrô, utilizo seus ônibus pensando na antiga Europa cristã...
Esta Europa não existe mais...
Existem sim, uma Europa e um Ocidente misturados, diversificados que, infelizmente, além de abertos aos demais (o que é bom), desconhecem e renegam seu passado cristão... e, desconhecendo suas gloriosas raízes cristãs, se desfiguram, se renegam a si mesmos...

Penso, então, em nós, “homens de Igreja”, tão preocupados em evangelizar: fazer novamente o Ocidente e a Europa conhecerem o Cristo e, mais ainda, plasmar uma nova cultura cristã, é o sonho e a obssessão de tantos de nós, “homens de Igreja”... Para isto, inventamos mil programas, mil modos para anunciar o Evangelho, levantamos mil hipóteses sobre o motivo da descristianização do mundo; culpamo-nos, culpamos a catequese, culpamos os erros históricos da Igreja, culpamos a liturgia...

Mas, nas nossas doutas análises – em geral tão pouco espirituais e tão desatentas ao Senhor – esquecemos o principal: o cristianismo não é uma proposta primeiramente a uma cultura, a um povo, a uma civilização;
o cristianismo é uma proposta a pessoas concretas, individuais, que, tendo a falta de juízo de acolher um Crucificado como Salvador, recebem o Batismo e entram no Povo santo de Deus, que é a Igreja...

Esquecemos que o anúncio cristão não deveria procurar fazer piruetas pastorais e malabarismos, coreografias litúrgicas ou coisinhas engraçadas para atrair as pessoas. Deveríamos somente anunciar Jesus, e Jesus crucificado e ressuscitado, que será sempre escândalo e loucura quando confrontado com a mentalidade do mundo!
Foi assim no princípio, quando ainda estávamos nas catacumbas; será sempre assim!
Se impérios converteram-se a Cristo foi porque, naqueles tempos, a conversão dos governantes levava consigo os governados... Hoje não é mais assim! A conversão é pessoal! E somente uma conversão deste modo corresponde ao que o Senhor Jesus espera de nós!

Então, pelo amor de Deus! A questão não é fazer malabarismos pastorais nem tornar o cristianismo palatável à nossa sociedade neopagã! A questão é somente anunciar o Senhor – um Senhor que quis aparecer aos homens na Sua humildade humana e, mais ainda, na Sua louca e incompreensível Cruz! O resto, é Ele, somente Ele, Quem faz!
Aceitar o Cristo, tornar-se cristão, é obra da graça, não perícia nossa! A nós cabe anunciar sem medo, sem meios termos, sem esconder as exigências e a originalidade do Evangelho... Ao homem – a cada homem que vem a este mundo! – cabe a decisão de crer ou não crer, aceitar ou não aceitar um Deus assim!

No mundo do bem-estar, do consumo, da técnica, do capitalismo mais despudorado, mais que nunca a lógica do Evangelho é escandalosa. Pois bem, é a este mundo que temos de propor Jesus! Mas, somente vamos fazê-lo de modo crível se não nos escondermos atrás de um falso diálogo, de uma secularização desavergonhada, da negação do Mistério e da gostosa loucura de crer!
Como se engana quem pensa que tomando o jeito do mundo e sorrindo para as suas loucuras seremos aceitos! E ainda que fôssemos, o Cristo que pregaríamos seria falsificado e inútil! "Anunciamos Jesus e Jesus Crucificado!"

Isto! Levar Jesus, sorrindo, não dando bola para quem nos achar loucos, reacionários, quadrados ou alienados - como umas freirinhas francesas jovens, bonitas, felizes, com hábitos bem compridos, que vi hoje na estação Términi, aqui em Roma!
Viver Jesus, saborear Sua presença nas Escrituras e na santa Liturgia - como experimentei hoje pela manhã na Missa em Rito bizantino eslavo no Pontifício Instituto Oriental...
Sem medo de sermos cristãos, sem medo de sermos felizes, sem medo de viver o Evangelho com todas as suas consequências pessoais e comunitárias - como o jovem de 19 anos, Enrico, que encontrei em Rovigo e que deseja largar tudo para ser padre.

Eis! Ser cristão foi e continuará sempre sendo isto e só isto: um encontro com o Senhor, uma paixão por Jesus, um desejo incontido e meio inexplicável de apostar a vida Nele e a Ele entregar tudo!
É isto o cristianismo, é isto que devemos proporcionar ao homem de hoje, sem apreensão, sem perda da paz, sem achar que está tudo perdido, sem pensar que salvaremos o mundo, sem cair na ilusão que nossos maravilhosos estudos e programas pastorais serão a solução...
O resto, o Senhor fará como Lhe aprouver!


Voltando a este espaço

Meu caro Leitor,

Decidi retomar meu Blog, parado desde 2015...
Depois de muito tempo utilizando somente o site www.domhenrique.com.br e o Facebook, resolvi retomar este espaço.

Por quê?
Porque aqui os textos são mais ágeis que no site e mais duráveis que no Facebook.

Quando um texto for mais elaborado, irá também para o site. Quando tratar-se de um escrito mais simples ou até que não seja de minha autoria, ficará somente aqui e no Facebook (Dom Henrique Soares da Costa). 

Deste modo, continuo com o site,
minha conta e página no Facebook
e, agora, com o Blog, novamente...

Vejamos se dará certo...

O objetivo é sempre o mesmo: partilhar, através dos meus escritos, a experiência cristã, um modo cristão de ver e experimentar a vida e o mundo.

Bem-vindo, mais uma vez!

Que o Senhor o abençoe!


+Henrique, de Palmares

sábado, 19 de setembro de 2015

XXV Domingo Comum: caminho de Cristo, caminho da cruz

No domingo passado – deveis recordar - Jesus anunciou aos Seus discípulos que Ele era um Messias não de glória, mas de humildade e serviço até à morte de cruz. Ao final, triunfaria pela ressurreição. Pedro havia se escandalizado com tais palavras.

Hoje, Jesus continua Sua pregação. Ele ensinava a sós a Seus discípulos: “’O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens e eles O matarão. Mas, três dias após, Ele ressuscitará’. Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar”.

Vede, caríssimos, é a mesma atitude da semana passada. O ensinamento do Senhor tem como seu centro o Reino de Deus que viria pela Sua cruz e ressurreição. Entrar no Reino é tomar com Jesus a cruz e com Ele chegar à Glória!

Estejamos atentos: este não é apenas mais um dos muitos ensinamentos de Cristo; este é o ensinamento por excelência, a mensagem central que o Senhor veio nos revelar e mostrar com Sua palavra, Suas atitudes e Sua própria vida. Repito: eis o que Jesus ensina: que o caminho do Reino passa pela cruz, passa pela morte e chega à plenitude da Vida na ressurreição.

Observai que Ele ensina isso de modo insistente e prepara particularmente os discípulos para esse caminho...

E, no entanto, os discípulos não compreendem a linguagem de Jesus, não compreendem Sua missão, Seu caminho! Esperavam um messias glorioso, cheio de poder, que resolvesse todos os problemas e reafirmasse orgulhosamente a glória terrena de Israel... Um messias na linha da teologia da prosperidade. Nada mais distante de Cristo que esse tipo de coisa!

Observai que, enquanto Jesus caminha adiante ensinando isso, os discípulos, seguindo-O com os pés, próximos fisicamente, estão com o coração muito longe do Senhor. No caminho, vão discutindo sobre quem deles era o maior! Jesus fala da humilhação e do serviço até à cruz; Seus discípulos, nós, falamos de quem é o primeiro, o maior...

Que perigo, caríssimos, pensarmos que somos cristãos, que seguimos Jesus, e estarmos com o coração bem longe do Mestre amado!

Temos nós essa tentação também? Certamente!

A linguagem da cruz continua difícil, dura, inaceitável para nós. É claro que não teoricamente: persignamos-nos com a cruz, beijamos a cruz, trazemo-la pendurada ao pescoço, veneramos a cruz... Mas, o caminho da cruz se faz na vida, não na teoria!

Essa cruz de Cristo está presente nas dificuldades, no convite à renúncia de nossa vontade para fazer a vontade do Senhor, na aceitação dos caminhos de Deus, na doença e na morte, nas perdas que a vida nos apresenta, nos momentos de escuridão, de silêncio do coração e de aparente ausência de Deus... Todas essas coisas nos põem à prova, como o justo provado da primeira leitura deste hoje. É a vida, são os acontecimentos, são os outros que nos provam: “Armemos ciladas aos justos... Vamos pô-lo à prova para ver sua serenidade e provar a sua paciência; vamos condená-lo à morte vergonhosa, porque, de acordo com suas palavras, virá alguém em seu socorro”. Jesus passou por esse caminho, fez essa experiência em total obediência à vontade do Pai. E nos convida a segui-Lo no hoje, no aqui da nossa vida. Nossa tentação é a dos primeiros discípulos: um cristianismo fácil, de acordo com a mentalidade do mundo atual; um cristianismo a baixo preço – isso: que não custe o preço da cruz! Se assim for, como estaremos longe de Jesus, como não O conheceremos! Ele nos dirá: “Apartai-vos de Mim! Não vos conheço!” (Mt 7,23).

Caros irmãos, ouvindo isso, talvez digamos: mas, como suportar a dureza da cruz? Como amá-la? Não é possível! É que ninguém pode amar a cruz pela própria cruz, caríssimos!

Cristo amou sua cruz e a abraçou por amor total e absoluto ao Pai, por fidelidade ao Pai. Nós, também, somente poderemos compreender a linguagem da cruz e somente não nos escandalizaremos com ela se for por um amor apaixonado pelo Senhor Jesus, para segui-Lo em Seu caminho, para estarmos em união com Ele.

Eis, portanto: é o amor ao Senhor que torna a cruz aceitável e até desejável! Sem o amor ao Senhor, a cruz é destrutiva, é louca, e desumana! Com Jesus e por causa de Jesus, a cruz é árvore bendita de libertação e de vida. É o amor a Jesus que torna doce o que é amargo neste vida! Não é por isso que tantos hoje, querem desconto nas exigências do Evangelho, quem abatimento nas exigências de Jesus? É que somente o amor torna leve e suave o que, em si mesmo, é exigente e pesado! Só o amor torna leve e suave o jugo de Jesus! Queremos nós tornar o Evangelho suave e doce aos homens? Façamo-los amar o Senhor! O Cristo não nos indica nem nos autoriza outro caminho!

O problema é que precisamos redescobrir a experiência tão bela e doce de amar Jesus. Não se pode ser cristão sem paixão pelo Senhor, sem um amor sincero entranhado para com Ele!

Como se consegue isso? Estando com Ele na oração, aprendendo a contemplá-Lo no Evangelho, alimentando durante o dia, dia todo, Sua lembrança bendita, procurando a Sua graça nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, lutando pacientemente para vencer os vícios e colocar a vida, os sentimentos, os instintos e a vontade em sintonia com a vontade do Senhor Jesus...

Sem esses exercícios não há amor, sem amor não há como compreender a linguagem da cruz e sem tomar a cruz com e por Jesus não há a mínima possibilidade de ser cristão! Quando vier a crise, largaremos tudo, trairemos o Senhor e terminaremos por fazer do nosso jeito, salvando a pele e fugiremos covardemente da cruz...

Então - pode ser que perguntemos – por que o Senhor quer nos fazer passar pela cruz?

Por que escolheu e determinou um caminho tão difícil?

Eis a resposta: porque somos egoístas, imaturos, quebrados interiormente! O pecado nos desfigurou profundamente! São Tiago traça um perfil muito realista e muito feio da nossa realidade: guerras interiores, paixões, disputas, autoafirmação doentia, desordens e toda espécie de obras más...

Quem tiver a coragem de entrar em si mesmo, quem for maduro para se olhar de frente verá em si todas essas tendências. Quantas vontades, quantas guerras interiores! Ora, isso tudo nos fecha para Deus, nos joga na idolatria do ter, do poder, do prazer, da autossuficiência de pensar que somos deuses... É a cruz do Senhor quem nos purifica, nos corrige e nos liberta de verdade. Não há outro modo, não há outro caminho. Somente sentimentos, risos, cantorias e boa vontade não nos construiriam, não nos colocariam de verdade em comunhão com o Senhor no Seu caminho. O mistério do pecado é sério demais, profundo demais para ser tratado com leviandade... “Quem quiser seu Meu discípulo tome a sua cruz e siga-Me” – diz o Senhor!

Caríssimos, tenhamos coragem! Na docilidade ao Espírito Santo que o Senhor nos concedeu, teremos tal união com o Senhor Jesus, que tudo poderemos e suportaremos. Foi esse o caminho dos santos de Deus de todos os tempos; é esse o caminho que agora nos cabe caminhar... Que o Senhor no-lo conceda por Sua graça, Ele que é Deus com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.

domingo, 13 de setembro de 2015

XXIV Domingo Comum: Um Messias exigente, que nos pede a entrega do própria vida

Is 50,5-9a
Sl 114
Tg 2,14-18
Mc 8,27-35

O Evangelho que acabamos de ouvir apresenta-nos, caríssimos, alguns dos aspectos mais essenciais da nossa fé cristã, aspectos que jamais poderemos esquecer se quisermos ser realmente fiéis a Nosso Senhor. Vejamo-los um a um:

Primeiro. A pergunta de Jesus: “Quem dizem os homens que Eu sou?”
Notai bem que as respostas são muitas: umas erradas, outras imprecisas, nenhuma satisfatória. Estejamos atentos a este fato: somente a razão humana, entregue às suas próprias forças, jamais alcançará verdadeiramente o mistério de Cristo.
A verdade sobre o Senhor, Sua realidade mais profunda, Sua obra salvífica, o mistério de Sua Pessoa e de Sua missão, Sua absoluta necessidade para que o mundo encontre salvação, vida e paz somente podem ser compreendidos à luz da fé, isto é, daquela humilde atitude de abertura para o Senhor que nos vem ao encontro e nos fala.
O homem fechado em si mesmo, preso no estreito orgulho da sua razão, jamais poderá de verdade penetrar no mistério de Cristo e experimentar a doçura de Sua salvação.
Quanto já se disse de Jesus; quanto se diz hoje ainda: já tentaram descrevê-Lo como um simples sábio, como um homem bom e justo, como uma espécie de pacifista, como um pregador de uma moral humanista, como um revolucionário, o primeiro comunista, como um hippie, etc. Nós, cristãos, não devemos nos iludir nem nos deixar levar por tais visões do nosso Divino Salvador. Jesus é e será sempre aquilo que a Igreja sempre experimentou, testemunhou e ensinou sobre Ele: o Filho eterno do Pai, Deus com o Pai e como o Pai, o Messias, o único Salvador da humanidade, através de Quem e para Quem tudo foi criado no céu e na terra. Qualquer afirmação sobre Jesus que seja menos que isso, não é cristã e deve ser rejeitada claramente pelos cristãos, no mínimo como insatisfatória!

Segundo. Ante as opiniões do mundo, o Senhor dirige a pergunta a nós, Seus discípulos: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”
Em cada geração, todos nós e cada um de nós devemos responder quem é Jesus. Não se trata de uma resposta somente teórica, teológica, digamos assim. Trata-se de uma resposta que deve ter sérias repercussões na nossa vida. A resposta deve ser dada, então, com a palavra da proclamação e as atitudes, as obras, que atestam a verdade do que cremos! Como nos adverte São Tiago, a fé, a proclamação com os lábios e o coração, sem as obras, sem as atitudes concretas na escolhas da existência e no modo de viver, é uma fé inútil, morta, ineficaz; tão ineficaz como dizer a um faminto e maltrapilho: “Irmão, vai em paz; Deus te abençoe: come à vontade”, sem lhe dar nada: nem roupa, nem alimento, nem dinheiro! Para que serviriam essas palavras ocas? Palavra não mata a fome, não veste... Assim, do mesmo modo dizer: “Eu creio em Jesus! Jesus é o meu Senhor! Ele é o Messias de Deus!” E, no entanto, depois, viver do meu modo, sem compromisso com Sua palavra, com Suas exigências, com Seu Evangelho... Palavras, palavras, sentimentos bonitos... Vento, somente vento e vazio!
Então: quem é Jesus para mim? Que papel desempenha na minha vida? Como me relaciono com Ele? Amo-O? Procuro-O na oração, procuro de todo o meu coração viver na Sua Palavra? Estou disposto a construir minha existência de acordo com a Sua verdade? Deixo-me julgar por Ele ou eu mesmo, discretamente, procuro julgá-Lo e adequá-Lo e mim e meus desejos?
São perguntas muito atuais, caríssimos, sobretudo hoje, quando nossa sociedade ocidental vira as costas para o Cristo, julgando-O anacrônico, exigente demais e ultrapassado. Agora que a nossa cultura já não considera mais Jesus como Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida, mas julga que a própria razão humana, com seus humores e pretensões, é que é a verdade e a luz, é, mais que nunca, essencial que nós proclamemos com a vida, com a palavra e com os costumes que Jesus é realmente o nosso Senhor, o nosso critério, a nossa única Verdade!

Terceiro. Pedro respondeu quem é Jesus: “Tu és o Messias!”, isto é, “Tu és o Cristo, o Esperado de Israel, Aquele que Deus prometera aos nossos Pais!”
Recordai, meus caros, que na mesma passagem, em São Mateus, Jesus declara claramente: “Não foi carne nem sangue que te revelaram isto, mas o Meu Pai que está nos céus” (Mt 16,15). Insisto: somente o Pai, na potência do Santo Espírito que habita em nós e na Igreja como um todo, é que pode revelar-nos quem é Jesus. A fé não é uma experiência acadêmica, não é fruto de estudos, não se resume a uma especulação teológica. Para um cristão, crer é entrar na experiência que há dois mil anos a Igreja vem fazendo na Palavra, nos sacramentos, na vida de cada dia: a experiência do Cristo Senhor, que foi morto pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa vida e justificação.
Quem se coloca fora dessa fé, da fé da Igreja, já não é realmente cristão! Aqui é muito importante compreender que a nossa fé é pessoal, mas nunca individual: cremos na fé da Igreja, cremos no Cristo da Igreja, cremos como Igreja e com a Igreja de hoje e de todos os tempos, pois a fé da Igreja não é somente a fé dos cristãos atuais, mas dos católicos de todos os tempos, da geração apostólica a hoje, avançando pelo amanhã adentro! Uma outra fé, um outro Cristo seriam triste ilusão!

Quarto. O Evangelho nos surpreende com uma afirmação: “Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a Seu respeito”. Por quê? Porque havia o perigo de pensar Nele como um messias glorioso, um messias como os sonhos dos judeus haviam fabricado: o messias do sucesso, das curas, dos shows da fé, dos palanques políticos, das libertações sócio-econômicas, etc.
Jesus somente afirmará de modo público que é o Messias quando estiver preso, amarrado, diante do Sumo Sacerdote. Aí já não haverá ocasião para engano.
Mas, aqui a dura questão: Também nós, muitas vezes, não temos a tentação de querer um Cristo do nosso modo, sob a nossa medida, para nosso consumo? Amamos o Cristo como Ele é ou O renegamos quando não faz como gostaríamos? Estamos realmente dispostos a ir com Ele até o fim, crendo Nele e Nele nos abandonando ou, disfarçadamente, pensamos em dar jeitinhos para escamotear a verdade e a exigência límpida e direta do Senhor que nos fere com Sua Palavra amorosa e verdadeira?

Quinto. Exatamente para deixar claro que tipo de Messias Ele é, Jesus começa a dizer “que o Filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado; devia ser morto e ressuscitar depois de três dias. Ele dizia isso abertamente”. Eis, caríssimos, o tipo de Messias, o tipo de Salvador, o tipo de Deus que Jesus é! Ele é o Messias Servo, aquele Sofredor anunciado por Isaías na primeira leitura de hoje, aquele que deverá dolorosamente tomar sobre Si os pecados nossos e do mundo inteiro para, humilhado e morto, ressuscitar, sendo motivo de salvação para a humanidade. Será que nos interessa? Estamos nós dispostos a seguir um Mestre assim?

Sexto. Pedro aventura-se a corrigir Jesus, a fazê-Lo mais racional, mais de acordo com as expectativas humanas... Não será a nossa a mesma atitude de Simão, que repreende Jesus, que desejaria um mestre mais razoável, mais palatável, menos radical? Não é essa a maior tentação nossa: um Cristo sem cruz, um cristianismo sem renúncia, uma vida cristã que não nos custe nada? Um seguimento de Cristo à moda do mundo? O Senhor deixa claro a Pedro que ele também é discípulo! Ainda que seja o que em nome de todos anuncia a fé da Igreja – Tu és o Messias!” – ele, diante do único Mestre, do único Guia, do único Senhor, é discípulo: seu lugar é atrás, segundo o Senhor, o único que indica o traçado do caminho!

Sétimo. A resposta de Jesus, portanto, é clara, curta e dirigida perenemente a todos nós: “Se alguém Me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e Me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem quiser perder a sua vida por causa de Mim e do Evangelho, vai salva-la!” O caminho é este, sem máscara, sem acordos, sem jeitinhos! Nosso Senhor nunca nos enganou; sempre disse claramente quais as condições para segui-Lo...

Caríssimos, saiamos hoje daqui com estas palavras que nos incomodam, nos provocam e nos desafiam. Que Ele, o Senhor, nosso Salvador, Messias do Pai, nos conceda a graça de reconhecê-Lo como nosso único Senhor, de segui-Lo como nossa única Verdade e de Nele viver como nossa única Vida, Ele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

domingo, 6 de setembro de 2015

XXIII Domingo Comum: O Senhor nos cura na força do Seu Espírito

Caríssimos, é cheio de detalhes significativos o Evangelho deste hoje: trazem a Jesus um surdo-mudo.

Observai, antes de tudo, este detalhe: o homem enfermo é trazido por outros até o Senhor. Outros o ajudam, orientam-no, incentivam-no, e o conduzem ao Senhor! Mais ainda, por ele intercedem junto a Cristo: "Pediram que Jesus lhe impusesse a mão!"


É assim, Irmãos meus: a experiência de fé, de encontro com o Senhor, tem um aspecto sempre comunitário, envolve sempre outros que nos ajudaram com uma palavra, um conselho, um exemplo, um belo testemunho, com a oração 
Percebendo ou não, nós somos conduzidos a Jesus uns pelos outros, uns sustentando os outros, uns animando os outros, uns testemunhando a fé para os outros, quando os outros sentem vacilar o ânimo ou a confiança!

Quão longe da experiência cristã aquele que pensa que se basta na sua fé,

Esta experiência é o que caracteriza a Igreja, a Comunidade dos discípulos do Senhor, a família da Cristo, na qual temos a alegria de compartilhar a mesma fé, o mesmo amor ao Senhor, a mesma esperança que não decepciona!


A Igreja é o "nós" dos que foram encontrados por Cristo Jesus, dos que Nele creem e Nele arriscam a vida é a morte, certos de que Ele é o Sentido, o Caminho por onde trilhar a existência, a Verdade que descortina a realidade nossa e das coisas, a Vida que dá consistência à nossa vida e a transforma em Vida Eterna.

Pois bem, trazem a Jesus o surdo-mudo e o Senhor, num gesto à primeira vista estranho, o cura. Que faz o nosso Salvador bendito? "Jesus afastou-Se com o homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. Olhando para o céu, suspirou e disse: 'Efatá!', que quer dizer: 'Abre-te!'"

Que significa tudo isto? Primeiro o modo como o Nosso Senhor respeita as pessoas: não as expõe a shows de cura, não faz de Seus milagres meio de vida ou busca de sucesso e afirmação!
É sempre encantador o respeito de Jesus pelos demais, é sempre tocante à Sua delicadeza, mesmo quando, por vezes, tem que ser firme! Jesus leva o homem surdo-mudo para um lugar afastado...
Sua atitude de olhar para o éu e suspirar tem um sentido tão belo e doloroso: é como se mostrasse ao Pai a situação da humanidade, como é unisse Sua dor à dor de todo homem que vem a este mundo! - Jesus, solidário conosco, Jesus, feito um de nós, Jesus, tocado pelas nossas misérias! Jesus, Senhor, tem piedade de nós!

Quem é esse surdo-mudo? É todo aquele que, por um motivo ou outro, é incapaz de ouvir a Palavra do Evangelho, aquele que, por razões tão diversas, não consegue de verdade deixar que a Palavra penetre e frutifique no seu coração.
E porque é surdo, também é mudo, ou seja, não consegue falar as maravilhas de Deus, não consegue louvar de coração livre, agradecer com ânimo de criança que tudo recebe do Pai, não consegue confessar a fé com a limpidez e alegria de quem experimentou a presença amorosa e salvífica do Senhor!

Mas o nosso Jesus, santo Messias de Deus, veio para curar! Ele pode, com a Sua graça, nos curar a surdez e a mudez! Não era isto que o Profeta anunciava na primeira leitura de hoje? "Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a recompensa de Deus; é Ele que vem para vos salvar. Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos, assim como brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo!"
Eis, Irmãos! Por onde passa o Senhor, a vida brota, a luz brilha, a alegria e a paz jorram! - Senhor, nosso Deus, meu Deus, passa pela nossa vida, passeia pela minha vida! Tu és o braço estendido do Pai, Tu és o Santo de Deus; através de Ti e para Ti tudo foi criado no Céu e na terra. De tudo és a razão, de tudo és o sentido! Nós cremos em Ti e a Ti nos entregamos com todo o nosso coração!

E os gestos do Senhor Jesus?

Primeiro cura a surdez do homem: abre-lhe os ouvidos com o toque de Seus dedos. São os dedos de Deus, do próprio Autor da Vida! É o Dedo de Deus é uma imagem do próprio Espírito Santo. Certa vez, Jesus disse: "Se é pelo Dedo de Deus que Eu expulso demônios..." e, em outra passagem, explicou: "Se é pelo Espírito Santo que Eu expulso demônios..." Eis, meus caros: a potência do Espírito Santo de Cristo pode vencer a nossa surdez, pode romper o fechamento do nosso coração, pode nos fazer crer! 
Peçamos pelos que não creem, pelos que têm dificuldade de acolher a Palavra do Senhor com um coração de criança!

Depois de tocar os ouvidos do surdo, Jesus cospe e com a saliva toca a língua do mudo! Gesto realmente esquisito!
Na concepção bíblica, a saliva é o sopro feito líquido. Eis aí, portanto, novamente, um símbolo do Espírito, o Sopro Criador e Recriador do Senhor!
O sentido é forte, é belíssimo: Jesus, o Ungido do Pai, cheio do Espírito, Força que O habita e Dele emana, cura, liberta, restaura para o Reino de Deus a humanidade presa por tantos empecilhos!
Vamos, Irmãos! Supliquemos ao Senhor nosso que nos cure a surdez, a mudez, a cegueira!

Não é à toa que São Tiago, na segunda leitura, nos convida a ver com o olhar de Deus, superando uma visão dos outros segundo as medidas deste mundo, para vermos como o Senhor vê e sentirmos como o Senhor sente!
Como termina a história desse homem do Evangelho? "Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade!"

- Cura-nos, Senhor, para que também nós Te escutemos de ouvidos abertos e coração disponível! Cura-nos, Senhor!
Desata a nossa língua, para que, sem dificuldades proclamemos o Teu Nome e anunciemos a este mundo ferido, cansado, desorientado, surdo e cego, a Alegria graciosa da Tua Salvação! 
A Ti a glória hoje é sempre! Amém.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A aventura de crer

Pensam alguns que a fé verdadeira nunca é assaltada pela dúvida, por períodos de profunda escuridão, de secura dos sentimentos e noite profunda do entendimento, que nos impede de sentir, de compreender, de articular nossa afirmação mais fundamental da existência: "Eu creio!"

Todo crente é peregrino diante Daquele que, antes de ser Palavra, é Silêncio.
Deus é Mistério infinito,
Deus é Noite escura que nos deixa cegos com Sua luminosidade,
Deus é o Santo, o Separado, o Diverso de tudo o mais,
Radicalmente incomparável!
Deus é Aquele que Se revela escondendo-Se
E Se esconde revelando-Se...
Deus... Como percebê-Lo, esquadrinhá-Lo, ter a pretensas soberba de compreendê-Lo,
A Ele, que tem mundo inteiro escondido na palma da Sua mão?
Eis: estamos Nele, tudo está Nele: na palma da Sua mão!

Assim, caminhar com o Senhor exige radical atitude de fé humilde e peregrina!
Uma fé que não atravesse o deserto das perguntas muitas vezes sem resposta,
Uma profissão de fé que não experimente, por vezes, as pesadas noites do não-sentir, do não-saber, do não mais ter perspectiva, é uma fé que não foi suficientemente provada... Não conheceu o verdadeiro e tremendo cadinho que a faz amadurecer entre lágrimas, cansaços, lutas e procuras...

Crer não é compreender tudo!
Crer exige a tremenda é sempre desafiadora pobreza de colocar-se diante de um Deus que é Mistério, um Deus que não nos presta contas de Seus atos e Seus silêncios, porque já nos disse tudo e tudo de Si nos explicou na Cruz e na Ressurreição do Seu Filho.

E, no entanto, crer é perguntar pelo Senhor,
É sempre, de novo, repor a pergunta sobre Ele!
Crer é procurá-Lo,
Por Ele ansiar,
Por Ele esperar,
É antevê-Lo em tudo,
É divisar, de modo misterioso, Seus passos benditos,
De modo que o coração teimoso e cansado advinha:
"Ele esteve aqui! Ele passou por aqui!" - E tudo, de repente, torna-se bendito,
Só pela presença Dele, pela passagem Dele, pelos rastros Dele!
Crer é teimar em viver assim: nômade, andarilho, peregrino,
Até compreender que procurar é já encontrá-Lo
E encontrá-Lo é pôr-se sempre, de novo, a procurá-Lo!

A fé é uma adesão ao Mistério,
É um constante e sofrido pôr-se em marcha, como Abraão,
Pôr-se em saída, como Moisés...

Vamos, peregrino, como eu!
Vamos de novo,
Vamos, que é Páscoa, é Passagem
- a vida neste mundo é tua embarcação, não tua morada!
Vamos como na Noite da Vigília:
O Cristo feito Círio à frente, luminoso, no meio da noite do mundo e da fé;
E nós, atrás,
Sua pobre Igreja,
Por vezes cansada,
Por vezes confusa,
Sempre por Ele sustentada na potência do Seu soberano Espírito!

Vamos! Vamos!
Digamos ainda, de novo, teimosos:
"Senhor, eu creio! Sustenta minha pobre fé, até o fim,
Até a plena Visão! Amém!"