quarta-feira, 1 de abril de 2015

Retiro quaresmal – Quarta-feira santa

Ainda o IV Cântico do servo:

“E no entanto, eram nossos sofrimentos que Ele levava sobre Si,
nossas dores que Ele carregava.
Mas nós O tínhamos como vítima de castigo,
Ferido por Deus e humilhado.
Mas Ele foi trespassado por causa das nossas transgressões,
Esmagado por causa das nossas iniquidades.
O castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre Ele,
Sim, por Suas feridas fomos curados” (Is 53,4-5).


São dramáticos, estes versículos!

Nunca no Antigo Testamento havia aparecido a ideia de que alguém pudesse tomar sobre si os pecados de outros ou do inteiro povo de Israel!

Aqui, este Servo misterioso, que, por um lado encarna em Si todo o Povo de Deus, aparece tomando sobre Si, na Sua carne, como homem de dores, os pecados de Seu povo, o Povo de Deus, muitas vezes infiel! E não somente os pecados, mas as próprias dores de Israel, os sofrimentos tantos dos filhos desse Povo ao longo da sua história! Aqui, o Antigo e o Novo Povo, Israel e a Igreja, se encontram misteriosamente em Cristo: Israel, corpo de Cristo segundo a carne, e a Igreja, corpo de Cristo segundo o Espírito que, em cada Eucaristia nos faz co-carnais e co-sanguíneos com Cristo. Aqui, Israel e a Igreja participam e participarão sempre, misteriosamente, das dores da paixão Daquele que tomou sobre Si as nossas dores! E tudo isto pela humanidade toda! Que mistério tremendo!

No Servo, Israel e a Igreja, Israel antigo e Israel novo, e cada membro desse povo, participam do ofício sacerdotal de intercessão do próprio Cristo Senhor!

Misteriosamente, o Shalom, a reconciliação que nos dá a paz – paz da salvação, da comunhão com Deus, paz que somente o Senhor pode nos conceder – veio a nós e ao mundo e à criação pelas dores do Servo, que continuam nas dores dos membros do Seu corpo! Por isso São Paulo afirmava: “Eu completo na minha carne o que faltou dos padecimentos de Cristo!” (Cl 1,24).

Paremos um pouco... Pense, agora, nas dores da sua vida, todas elas: frustrações, feridas da alma, fraquezas, desilusões, decepções, lutas, cansaços, medos... Pense nas dores do mundo, nos aparentes absurdos da história... Recorde as dores de tantos machucados e esmagados pelos acontecimentos da vida...

Agora, pense no Servo, homem de dores, manso cordeiro: “Eram nossos sofrimentos que Ele levava sobre Si, nossas dores que Ele carregava. Mas nós O tínhamos como vítima de castigo, ferido por Deus e humilhado. Mas Ele foi trespassado por causa das nossas transgressões, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre Ele, sim, por Suas feridas fomos curados”.

Agora, coloque nas mãos do Senhor as suas dores todas... Nele, tudo encontra sentido, até o que para nós não tem sentido! Ofereça tudo a Ele, completando na sua carne as dores da Paixão Dele!

Coloque, depois, as dores das pessoas que você conhece...

Agora, as dores do mundo: dos sofridos, dos injustiçados, dos esmagados...

No Domingo da Ressurreição, Jesus dirá: “Shalom! Paz!” E mostrará as chagas! “O castigo que nos dá o Shalom caiu sobre Ele; pelas Suas chagas fomos cruados!”...


Obrigado, bendito Jesus!
Obrigado, doce Servo do Senhor Deus!
Obrigado, manso Cordeiro!
Obrigado, humilde Servidor do Pai e dos homens!
Obrigado, nosso Salvador!
Obrigado, nosso Redentor!
Obrigado, nosso Sumo e Eterno Sacerdote!

Reze todo o capítulo 3 das Lamentações.

terça-feira, 31 de março de 2015

Retiro quaresmal - Terça-feira santa

Primeiro, concluamos o III Cântico do Servo Sofredor:

“Quem dentre vós teme o Senhor e ouve a voz do Seu Servo?
Aquele que caminhou nas trevas, sem nenhuma luz,
ponha a sua confiança no nome do Senhor,
tome como arrimo o seu Deus.
Mas, todos vós que acendeis um fogo,
Que vos munis de setas incendiárias,
Atirai-vos às chamas do vosso fogo
E às setas que acendestes.
Por Minha mão isto vos há de sobrevir:
Deitar-vos-ei no meio dos tormentos” (Is 50,10-11).


O Cântico termina com uma exortação que é também um desafio:
Quem crê realmente no Deus de Israel?
Quem é discípulo desse Servo feito trapo humano, homem de dores?
Pois bem: que mesmo nas trevas da vida, coloque, como o Servo, a sua confiança no Senhor, Nele tome arrimo, Nele alicerce a sua vida!

Que consolo, que exortação impressionante: venha o que vier na vida, estejamos na treva mais densa, se fixarmos os olhos nesse Servo bendito, se unirmos nosso coração ao Dele, não perderemos o rumo, não seremos tragados pelas ondas da morte e chegaremos nos braços do Deus Santo, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo!

Mas, quanto aos que, de modo autossuficiente, fazem pouco do Santo de Israel e do Seu Servo, serão consumidos como palha inútil no próprio fogo de sua descrença e rebeldia. Pense nisto, meu Irmão! Pense nisto! Tome arrimo no Senhor, siga o Servo, Jesus nosso Senhor, e nada o derrubará, nada irá tirar o sentido da sua existência e prumo da sua vida!

Nunca esqueça, Irmão: haverá um juízo de Deus! Não são a mesma coisa ser amigo de Cristo ou Dele apartar-se; não são a mesma coisa ser por Cristo e ser contra Cristo! um dia haverá o Juízo divino... Para Judas, a palavra do Senhor foi clara: "Melhor seria não ter nascido!"

Os que se unem ao Servo na Sua morte e ressurreição, terão vida; os que combatem o Servo, serão destruídos como palha seca...

Pense nisto... Pense na sua vida...

Reze o Salmo 140/141

Agora, iniciemos, ainda neste Retiro, o Quarto Cântico do Servo. É o mais impressionante de todos!

“Eis que Meu Servo prosperará,
Ele Se elevará, será exaltado, será posto nas alturas” (Is 52,13).

Já foi descrito como a Paixão de Cristo segundo Isaías. Novamente, como no primeiro Cântico, é o Senhor Deus, o Santo e Israel quem fala... Fala garantindo o triunfo e a grandeza do Servo: Ele prosperará, elevar-Se-á, será exaltado! Mas, é surpreendente o caminho a ser percorrido para chegar a esta glória. É o tema deste poema...

“Exatamente como multidões ficaram pasmadas à vista Dele
- pois Ele não tinha mais figura humana
e Sua aparência não era mais a de homem –
assim, agora nações numerosas ficarão estupefatas a Seu respeito,
reis permanecerão silenciosos,
ao verem coisas que não lhes havia sido contadas
e ao tomarem consciência de coisas que não tinham ouvido” (Is 52,14-15).

Ainda é o Senhor Deus Quem fala, e Se refere a uma mudança radical, inesperada, impressionante no destino do Servo: fora visto antes como um homem desfigurado; tão desfigurado de causar admiração e espanto
Agora, Sua glória será tanta, que reis e grandes do mundo haverão de calar-se, admirados e temerosos, diante Dele! Só o Senhor pode mudar assim, de modo tão radical e permanente, a existência de alguém...

“Quem creu naquilo que ouvimos,
e a quem se revelou o braço do Senhor?
Ele cresceu diante Dele como um renovo,
como raiz em terra árida;
não tinha beleza nem formosura capaz de nos deleitar.
Era desprezado e abandonado pelos homens,
homem sujeito a dor, familiarizado com o sofrimento,
como pessoa de quem todos escondem o rosto;
desprezado, não fazíamos caso Dele” (Is 53,1-3).


Quem fala agora? Já não é mais o Senhor Deus. Falam agora aqueles que contemplaram a miséria, a dor, a ignomínia do Servo: descrevem todo o Seu sofrimento e revelam-lhe o sentido de Sua paixão e morte! Aí, por obra do Espírito de Cristo, está explicado muito do sentido da paixão e morte do nosso Salvador. Eis os pontos mais salientes deste trecho acima:

(1) Diante de Deus Ele cresceu, mas como um pequeno rebento, raquítico, pobre.

(2) Humanamente, não era grande coisa, chegando mesmo a tornar-Se desprezível e repugnante...

Impressiona como o Senhor Deus Se revela em alguém nesta situação! Como os caminhos de Deus não são os nossos! Para compreendê-los é preciso converter-se: Quem acreditou no que ouvimos? A quem foi revelado o braço do Senhor, que age de modo tão surpreendente?

Se não nos convertermos à lógica de Deus, jamais poderemos crer Nele de verdade ou compreender algo dos Seus caminhos!

Reze o Salmo 21/22

segunda-feira, 30 de março de 2015

Retiro quaresmal - Segunda-feira Santa

Continuemos nossa meditação do Terceiro Cântico do Servo Sofredor:

“O Senhor Deus abriu-Me os ouvidos
e Eu não fui rebelde,
não recuei.
Ofereci o dorso aos que Me feriam
e as faces aos que Me arrancavam os fios da barba;
não ocultei o rosto às injúrias e aos escarros” (Is 50,6).

É caro, sempre foi, o preço da fidelidade, da obediência ao Senhor!
Porque o Servo foi fiel, porque não recuou diante da missão que o Santo Lhe dera, teve como recompensa a rejeição, os flagelos, a abjeção e a ignomínia! Como não pensar em Jesus, o Servo Sofredor, inocente, manso e fiel ao Pai?
Ainda hoje, todo aquele que Lhe quiser ser fiel, tem um preço a pagar, às vezes dentro da Sua própria Igreja!

“O Senhor Deus virá em Meu socorro,
eis por que não Me sinto humilhado,
eis por que fiz do Meu rosto uma pederneira
e tenho certeza de que não ficarei confundido.
Perto está Aquele que defende a Minha causa.
Quem ousará mover ação contra Mim? Compareçamos juntos!
Quem é Meu adversário? Ele que se apresente!
É o Senhor Deus que Me socorrerá,
quem será aquele que Me condenaria?
Certamente, todos eles se desgastarão como uma veste:
a traça os devorará!” (Is 50,7-9).

Impressionante, surpreendente!
O Servo, mesmo sofrido, homem de dores, maltratado, flagelado, tem uma atitude triunfal!
Loucura? Insanidade? Falta de realismo? Alienação maluca, provocada por alucinação e idiotice religiosa?
Não! Força, segurança, certeza fundada Naquele que é o Deus fiel, o Santo de Israel! “O Senhor virá em Meu socorro! O Senhor defenderá a Minha causa! Ainda que todos Me condenem, se o Senhor Me absolver, se Ele estiver ao Meu lado, por que temer? Por que vacilar? Por que duvidar do caminho que escolhi e para o qual fui escolhido?”

Observe no Servo a profunda convicção do triunfo e da permanência em Deus daquele que a Ele se confia e, por outro lado, a ilusão, a fugacidade, daqueles que se voltam contra o Senhor e Seu Servo.

Pense, meu Irmão, no contraste entre a Sexta-feira e o Sábado Santo, por um lado, e o Domingo da Ressurreição, por outro! – Senhor, os que Te esperam não perecem, não se apagam na sua existência, mas brilham como o sol ao amanhecer! “Eu tranquilo vou deitar-Me e na paz logo adormeço, pois só Vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida!” (Sl 4).

Reze os Salmos 69/70 e 70/71. Que o Senhor nos conceda a graça de um abandono confiante em Suas mãos como aquela do Filho Jesus!

sábado, 28 de março de 2015

Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor

Is 50,4-7
Sl 21
Fl 2,6-11
Mc 14,1 – 15,47

Caríssimo Irmão, baste-nos alguns pensamentos, para a Eucaristia solene deste Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, que abre a Grande Semana da nossa fé, a Semana santíssima, que culminará com a Solenidade da Páscoa, Domingo próximo.

Primeiro faz-se, hoje, com uma procissão dos ramos, memória da Entrada do Senhor Jesus em Jerusalém.

Ele é o Filho de Davi, o Messias esperado por Israel, que vem tomar posse de Sua Cidade Santa, Jerusalém, Cidade de Davi, cidade do Messias.

Mas, que surpresa! Trata-se de um Messias humilde, que entra não a cavalo, mas num humilde burrico, sinal de serviço e pequenez! Ei-Lo: Seu serviço será dar a vida pela multidão!

Ele é Rei, mas rei coroado de espinhos e não de humana vanglória.

Seguir o Senhor nessa solene procissão com ramos é reconhecê-Lo como nosso rei, rei pobre e humilde. Segui-Lo me procissão é nos dispor a segui-lo nas pobrezas e humildades da vida, dispondo-nos a participar de sua paixão e cruz para ter parte na glória de Sua ressurreição.

Após a Procissão de Ramos, que pensamentos poderíamos colher agora na Liturgia da Palavra da Missa da Paixão do Senhor? Eis alguns pensamentos:

Primeiro: O meio que Deus escolheu para nos salvar não foi o que é grande e vistoso, tão apreciado pelo mundo. Ao invés, o Pai nos salvou pela humilde obediência do Filho Jesus. Reconheçamos na voz do Servo sofredor da primeira leitura a voz do Filho de Deus:

“O Senhor Deus Me desperta cada manhã e Me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo. O Senhor abriu-Me os ouvidos; não Lhe resisti nem voltei atrás. Ofereci as costas para Me baterem e as faces para arrancarem a barba. O Senhor é o Meu Auxiliador, por isso não Me deixei abater o ânimo, porque sei que não serei humilhado”.

Palavras impressionantes, caríssimo!

O Filho buscou humildemente, na obediência de um discípulo, a vontade do Pai – e aí encontrou força e consolo, encontrou a certeza de Sua vida. São Paulo, na segunda leitura de hoje, confirma isso com palavras não menos impressionantes: “Jesus Cristo, existindo na condição divina, esvaziou-Se de si mesmo, humilhou-Se, fazendo-Se obediente até a morte, e morte de cruz”. Caríssimo em Cristo, num mundo que nos tenta a ser os donos da verdade, desprezando os preceitos do Senhor Deus e Seus planos para nós, aprendamos a humilde obediência de Cristo Jesus, entremos em comunhão com o Cristo obediente ao Pai até a morte. Só então seremos livres realmente, somente então viveremos de verdade!

Um segundo pensamento: O breve e concreto relato da Paixão segundo São Marcos, apresenta-nos ao menos três modos de nos colocar diante do Cristo nosso Senhor. Dois modos inadequados, que deveremos evitar, apesar de tantas vezes neles cairmos; e um modo correto, a que somos continuamente chamados. Ei-los:

Primeiramente, o modo dos discípulos, tão vergonhoso: “Então todos o abandonaram e fugiram”. Oh! meu caro, que desde o início temos sido covardes, desde os princípios somos um mísero bando de infiéis! Fomos nós, os discípulos, que fugimos, que deixamos sozinho o Salvador, o nosso Mestre!

Quantas vezes, nos apertos da vida, fugimos e O abandonamos: no vício, no comodismo, na busca de crendices e seitas, no fascínio por ideologias, ideias e filosofias opostas à nossa fé! Como é fácil fugir, como é fácil, ainda agora, abandoná-Lo!

– Perdoa-nos, Senhor Jesus, porque ainda hoje somos assim, ainda somos como os primeiros discípulos: frágeis, inconstantes, covardes mesmo!

Perdoa-nos pelo pouco amor, pela falta de compromisso!

Perdoa-nos as juras de amor para sempre, que se desfazem na primeira dificuldade!



Depois, o modo de Pedro, que “seguiu Jesus de longe”. Atenção, caríssimos Pedros que neste espaço virtual me acompanham! Não se pode seguir Jesus de longe!

Quem O segue assim?

Aquele que pensa poder ser discípulo pela metade; que se ilude, pensando seguir o Senhor sem combater seus vícios e pecados; que imagina poder servir a Deus e ao dinheiro, ao Senhor e aos costumes e modos e pensamentos do mundo!

Como terminarão esses? Como terminou Pedro: negando conhecer Jesus!

– Senhor, olha para nós, como olhaste para Pedro; dá-nos o arrependimento e o pranto pela covardia e frieza em Te seguir! Faze-nos verdadeiros discípulos Teus, que Te sigam de perto até a cruz, como o Discípulo Amado, ao lado de Tua Santíssima Mãe!

Finalmente, uma atitude bela e digna de um verdadeiro discípulo do Senhor: aquele gesto, da misteriosa mulher, que ungiu a cabeça do Senhor com nardo puro, caríssimo!

Notou, querido Irmão em Cristo, o detalhe de São Marcos? “Ela quebrou o vaso e derramou o perfume na cabeça de Jesus”. Quebrou o vaso... Isto é, derramou todo o perfume, sem reservas, sem pena, com amoroso estrago... Para o Senhor, tudo; para o Salvador o melhor! E São João diz que “a casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo” (Jo 12,3).

Ó mulher feliz, discípula generosa! Dando tudo ao Senhor, perfumou toda a casa com o bom odor de um amor ser reservas! Quanta generosidade dessa mulher politicamente incorreta! Quanta hipocrisia, quanta mesquinhez dos apóstolos politicamente corretos, que não compreenderam seu gesto de amor gratuito!

– Senhor Jesus, faz-nos generosos para Contigo! Que Te amemos como essa mulher: sem reservas, sem fazer contas!

Ó Senhor, que nos amaste até o extremo, ensina-nos a Te amar assim também, colocando nossos perfumes, isto é, aquilo que temos de precioso, a Teus pés! Então, o mundo será melhor, porque o bom odor do amor haverá de se espalhar como testemunho da Tua presença!

Eis, caríssimo Amigo! Fiquemos com estes santos pensamentos, preparando-nos durante toda esta Semana para o Tríduo Pascal, que terá seu cume na Santa Vigília da Ressurreição! 

Nós Vos adoramos, Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos,
porque pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

Retiro quaresmal - sábado da V semana

Agora, iniciamos a meditação do Terceiro Cântico do Servo Sofredor:

“O Senhor Deus Me deu língua de discípulo
Para que soubesse trazer ao cansado uma palavra de conforto.
De manhã em manhã Ele Me desperta, sim, desperta o Meu ouvido
para que Eu ouça como os discípulos” (Is 50,4).


Assim começa este terceiro poema. Note-se bem o logo a afirmação inicial: é surpreendente!
O Servo afirma que o Senhor Lhe deu uma língua de discípulo. Discípulo é o que aprende, o que escuta, todo aberto ao que o mestre fala. O surpreendente é que não diz que o Senhor deu um ouvido ou um coração de discípulo, mas uma língua! Em outras palavras: tudo quanto o Servo diz é porque assim ouviu do Senhor, do Santo de Israel! Como não pensar no nosso Salvador, que tantas vezes insistiu: “Minha doutrina não é Minha: Eu digo como o Pai me ordenou! Meu alimento é fazer a vontade do Pai!” Assim, o Servo; assim Jesus: totalmente aberto, totalmente disponível, totalmente pobre ante a vontade santíssima do Pai!

Jesus, nosso Senhor, nunca teve pose de astro, de pop star! Não: tudo Nele remetia ao Pai. Era o Pai que importava, era a vontade do Pai, a glória do Pai, o interesse do Pai, o Reino do Pai que realmente contavam! E esta atitude do nosso Salvador foi a atitude fundamental de toda a Sua existência na nossa carne: “De manhã em manhã Ele Me desperta, sim, desperta o Meu ouvido para que Eu ouça como os discípulos!”

Jesus foi grande, foi livre precisamente porque nunca procurou Sua própria glória, Sua própria vontade, Seu próprio interesse, mas somente a vontade do Pai: “Eu vim, ó Deus, para fazer a Tua vontade!” Por isso mesmo, Ele teve que aprender a obedecer, conforme diz a própria Escritura (cf. Hb 5,8). E isto custou; foi um duro aprendizado, com as dolorosas circunstâncias da vida: a cada manhã, a cada nova ocasião, o Pai Lhe foi abrindo os ouvidos! Que mistério, este da obediência amorosa do Filho, do ajustamento contínuo da Sua vontade humana à vontade do Pai!

Por isso mesmo, pela Sua santíssima obediência, Seu ministério foi fecundo e tornou-se consolo, salvação e libertação para nós e para o mundo inteiro: “soubesse trazer ao cansado uma palavra de conforto”. Eis: foi para a nossa salvação, para nosso conforto no coração do Santo de Israel que o Filho Se submeteu!

Adoremos, Irmão, este mistério! Imitemos o que adoramos! Recebamos a graça do que imitamos no concreto da nossa vida!

Reze o Salmo 93/94

Algumas anotações litúrgicas para o Domingo de Ramos

(1) A cor dos paramentos é vermelho, cor da paixão, do sangue, do Espírito de amor que faz dar a vida pelos irmãos.

(2) Em cada igreja somente pode haver uma procissão de ramos, feita antes da missa principal. No caso de uma outra missa importante, pode-se fazer nova bênção dos ramos e a entrada solene, como está na "Segunda forma" do Missal Romano: à porta da igreja os fiéis se reúnem, trazendo ramos nas mãos. O celebrante dirige-se para lá com os acólitos, abençoa os ramos, lê o Evangelho próprio e entra com o povo para a missa.

(3) A igreja deve estar discretamente ornamentada com ramos, não com flores.

(4) Para a procissão, é aconselhável que o padre use o pluvial. Somente chegando à igreja, depois de beijar e incensar o altar, tira o pluvial e coloca a casula.

(5) Na procissão, o padre vai à frente, com um ramo na mão, precedido pelos acólitos e seguido pelo povo.

(6) Os cânticos devem ser os próprios para esta celebração. Estão no missal. Existem CDs com composições próprias para esta momento.

(7) O padre, após revestir-se com a casula, já inicia a missa com a oração da Coleta.

(8) Importante: Ainda que não haja bênção dos ramos, o Evangelho da Missa é sempre a Paixão e nunca o da entrada de Jesus em Jerusalém. Nunca se deve esquecer: não há missa de ramos! A missa é da Paixão; de ramos é a procissão!

(9) A Paixão pode ser lida por várias pessoas, mas nunca dramatizada! A liturgia não é um teatro! Isso seria uma completa e total deturpação do que é uma celebração litúrgica!

(10) Os ramos devem ser levados para casa, colocados num lugar digno e devolvidos à paróquia antes da Quarta-feira de Cinzas do ano seguinte, para ser transformado em cinzas.

O Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor

Procissão dos Ramos e Missa da Paixão

Com o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, inicia-se a Semana Santa, que os antigos cristãos chamavam Grande Semana.
Neste dia, a Igreja celebra dois mistérios bem distintos e complementares: (1) a entrada solene de Jesus em Jerusalém para celebrar sua última e definitiva Páscoa e
(2) a Sua Paixão e morte.
A entrada é celebrada com a bênção dos ramos e a procissão; a paixão e morte é celebrada na missa. Então, não existe uma Missa de Ramos; de ramos é a Procissão; a Missa é da Paixão do Senhor.

Isso tem um motivo histórico. Em Roma, não havia uma Semana Santa. Celebrava-se no sexto domingo da Quaresma a Paixão e Morte de Cristo e, no domingo seguinte, a Páscoa do Senhor. Somente no século XI é que a Procissão de Ramos, costume nascido em Jerusalém, passado para a Espanha e, depois, para a Gália (atual França), chegou a Roma, entrando na liturgia romana.

Participar da Bênção e Procissão dos Ramos:
(1) Significa reconhecer e proclamar que Jesus é o Messias prometido a Israel, o Descendente de Davi; o Salvador;
(2) Também significa reconhecer que Ele não é um Messias glorioso, mas humilde – vem num burrico e não num potente cavalo! -, um Messias que vem para servir e dar a vida: Seu trono será a cruz; Sua coroa, de espinhos, Seu cetro, uma cana colocada em Suas mãos em tom de zombaria!
(3) Participar da Procissão significa que queremos nos colocar debaixo do senhorio desse Messias pobre e humilde e desejamos participar da Sua sorte: ir com Ele até a cruz para participar da Sua vitória: “Fiel é esta palavra: se sofrermos com Ele, com Ele reinaremos; se morrermos com Ele, com Ele viveremos!” (2Tm 1,11s).

No contexto da Bênção dos Ramos, lê-se o Evangelho da entrada do Senhor em Jerusalém e faz-se uma pequena homilia explicando os três aspectos acima elencados.

Os ramos da Procissão devem ser guardado em casa, num lugar visível, para recordar que participamos dessa Profissão, proclamando que estávamos dispostos a ir até a cruz com o Senhor. E nas dores e sofrimentos da vida, olhando os ramos, vamos nos lembrar que as dores e feridas da existência são um modo de participar da Paixão do Senhor. Entremos com Ele em Jerusalém!

Terminada a Procissão, termina também toda referência que a liturgia faz aos Ramos. Então, tudo se volta para a Paixão do Senhor. A primeira leitura, é o Terceiro Canto do Servo Sofredor de Isaías (Is 50,4-7), recordando que o Senhor Jesus Se fez obediente ao Pai, um verdadeiro discípulo, aprendendo com o sofrimento, e encontrou forças na confiança no Seu Senhor e Deus.
O salmo responsorial é o Sl 22, aquele que Jesus rezou na cruz. Rezar esse salmo é ler os pensamentos de Jesus no momento da cruz!
A segunda leitura é o profundo hino de Filipenses 2,6-11: O Filho, sendo Deus, humilhou-Se até a morte de cruz e foi exaltado pelo Pai acima de tudo.
Finalmente, a Paixão segundo o Evangelista de cada ano – este ano de 2005 é o Evangelho segundo Marcos. Esta Missa tem um Prefácio próprio, que resume de modo admirável o mistério pascal: “Inocente, Jesus quis morrer pelos pecadores. Santíssimo, quis ser condenado a morrer pelos criminosos. Sua morte apagou nossos pecados e Sua ressurreição nos trouxe Vida nova”. A homilia dessa missa não deve deter-se sobre o tema dos ramos e sim no mistério do amor do Senhor que Se entregou ao Pai por nós até a morte e morte de cruz.