sábado, 28 de março de 2015

Algumas anotações litúrgicas para o Domingo de Ramos

(1) A cor dos paramentos é vermelho, cor da paixão, do sangue, do Espírito de amor que faz dar a vida pelos irmãos.

(2) Em cada igreja somente pode haver uma procissão de ramos, feita antes da missa principal. No caso de uma outra missa importante, pode-se fazer nova bênção dos ramos e a entrada solene, como está na "Segunda forma" do Missal Romano: à porta da igreja os fiéis se reúnem, trazendo ramos nas mãos. O celebrante dirige-se para lá com os acólitos, abençoa os ramos, lê o Evangelho próprio e entra com o povo para a missa.

(3) A igreja deve estar discretamente ornamentada com ramos, não com flores.

(4) Para a procissão, é aconselhável que o padre use o pluvial. Somente chegando à igreja, depois de beijar e incensar o altar, tira o pluvial e coloca a casula.

(5) Na procissão, o padre vai à frente, com um ramo na mão, precedido pelos acólitos e seguido pelo povo.

(6) Os cânticos devem ser os próprios para esta celebração. Estão no missal. Existem CDs com composições próprias para esta momento.

(7) O padre, após revestir-se com a casula, já inicia a missa com a oração da Coleta.

(8) Importante: Ainda que não haja bênção dos ramos, o Evangelho da Missa é sempre a Paixão e nunca o da entrada de Jesus em Jerusalém. Nunca se deve esquecer: não há missa de ramos! A missa é da Paixão; de ramos é a procissão!

(9) A Paixão pode ser lida por várias pessoas, mas nunca dramatizada! A liturgia não é um teatro! Isso seria uma completa e total deturpação do que é uma celebração litúrgica!

(10) Os ramos devem ser levados para casa, colocados num lugar digno e devolvidos à paróquia antes da Quarta-feira de Cinzas do ano seguinte, para ser transformado em cinzas.

O Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor

Procissão dos Ramos e Missa da Paixão

Com o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, inicia-se a Semana Santa, que os antigos cristãos chamavam Grande Semana.
Neste dia, a Igreja celebra dois mistérios bem distintos e complementares: (1) a entrada solene de Jesus em Jerusalém para celebrar sua última e definitiva Páscoa e
(2) a Sua Paixão e morte.
A entrada é celebrada com a bênção dos ramos e a procissão; a paixão e morte é celebrada na missa. Então, não existe uma Missa de Ramos; de ramos é a Procissão; a Missa é da Paixão do Senhor.

Isso tem um motivo histórico. Em Roma, não havia uma Semana Santa. Celebrava-se no sexto domingo da Quaresma a Paixão e Morte de Cristo e, no domingo seguinte, a Páscoa do Senhor. Somente no século XI é que a Procissão de Ramos, costume nascido em Jerusalém, passado para a Espanha e, depois, para a Gália (atual França), chegou a Roma, entrando na liturgia romana.

Participar da Bênção e Procissão dos Ramos:
(1) Significa reconhecer e proclamar que Jesus é o Messias prometido a Israel, o Descendente de Davi; o Salvador;
(2) Também significa reconhecer que Ele não é um Messias glorioso, mas humilde – vem num burrico e não num potente cavalo! -, um Messias que vem para servir e dar a vida: Seu trono será a cruz; Sua coroa, de espinhos, Seu cetro, uma cana colocada em Suas mãos em tom de zombaria!
(3) Participar da Procissão significa que queremos nos colocar debaixo do senhorio desse Messias pobre e humilde e desejamos participar da Sua sorte: ir com Ele até a cruz para participar da Sua vitória: “Fiel é esta palavra: se sofrermos com Ele, com Ele reinaremos; se morrermos com Ele, com Ele viveremos!” (2Tm 1,11s).

No contexto da Bênção dos Ramos, lê-se o Evangelho da entrada do Senhor em Jerusalém e faz-se uma pequena homilia explicando os três aspectos acima elencados.

Os ramos da Procissão devem ser guardado em casa, num lugar visível, para recordar que participamos dessa Profissão, proclamando que estávamos dispostos a ir até a cruz com o Senhor. E nas dores e sofrimentos da vida, olhando os ramos, vamos nos lembrar que as dores e feridas da existência são um modo de participar da Paixão do Senhor. Entremos com Ele em Jerusalém!

Terminada a Procissão, termina também toda referência que a liturgia faz aos Ramos. Então, tudo se volta para a Paixão do Senhor. A primeira leitura, é o Terceiro Canto do Servo Sofredor de Isaías (Is 50,4-7), recordando que o Senhor Jesus Se fez obediente ao Pai, um verdadeiro discípulo, aprendendo com o sofrimento, e encontrou forças na confiança no Seu Senhor e Deus.
O salmo responsorial é o Sl 22, aquele que Jesus rezou na cruz. Rezar esse salmo é ler os pensamentos de Jesus no momento da cruz!
A segunda leitura é o profundo hino de Filipenses 2,6-11: O Filho, sendo Deus, humilhou-Se até a morte de cruz e foi exaltado pelo Pai acima de tudo.
Finalmente, a Paixão segundo o Evangelista de cada ano – este ano de 2005 é o Evangelho segundo Marcos. Esta Missa tem um Prefácio próprio, que resume de modo admirável o mistério pascal: “Inocente, Jesus quis morrer pelos pecadores. Santíssimo, quis ser condenado a morrer pelos criminosos. Sua morte apagou nossos pecados e Sua ressurreição nos trouxe Vida nova”. A homilia dessa missa não deve deter-se sobre o tema dos ramos e sim no mistério do amor do Senhor que Se entregou ao Pai por nós até a morte e morte de cruz.

Sugestões de leituras bíblicas para bem celebrar a Semana Santa

Caro Irmão, nas mensagens seguintes, ofereço-lhe aqui um esquema de leituras da Sagrada Escritura para os dias do Santo Tríduo Pascal, para que você possa estar unido ao Cristo na celebração solene dos mistérios de sua Paixão, Morte e Ressurreição.

Os números dos salmos entre parênteses são da Vulgata (e da Ave Maria). Os números fora dos parênteses são da Bíblia hebraica (e da Bíblia de Jerusalém, da Bíblia do Peregrino , da CNBB e da TEB).

Quinta-feira Santa

Neste dia, toda a atenção da Igreja se volta para o Cristo que, na Ceia, celebrou ritualmente a Páscoa com Seus discípulos: “Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de sofrer...” (Lc 22,15).
Aquilo que o Senhor fizera nos gestos rituais (lavar os pés aos Seus, entregar-Se no pão e no vinho) na Quinta, Ele realizou realmente na Sexta-feira.
Recordemos que o Senhor fez Sua despedida no contexto da ceia pascal judaica, na qual os judeus faziam memorial da saída do Egito, libertação do povo de Israel. Jesus, agora, sairia do mundo, passando ( = fazendo a Páscoa) para o Pai, após atravessar o profundo e tenebroso mar da morte. Por tudo isso, para a Quinta-feira são recomendáveis os seguintes textos:

Para serem lidos antes da Missa na Ceia do Senhor:

1. Jo 13,1 – 14,31
É a emocionante narração da Ceia segundo João. Procure unir-se aos sentimentos de Cristo; procure entrar no clima de despedida e comoção daquela Ceia derradeira.

2. Sl 113(112) – Sl 118(117)
Estes seis salmos formam o Hallel Emoticon smile Louvor: Hallelu-Iah: louvai o Senhor) que os judeus cantavam na Ceia pascal judaica. Jesus cantou-os neste dia, recordando tudo quanto Deus fizera pelo Seu povo, ao tirá-lo do Egito: “Depois de terem cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras” (Mc 14,26). Se não for possível rezar estes salmos antes da Missa na Ceia do Senhor, que eles sejam rezados logo após.

Para serem lidos após a Missa na Ceia do Senhor:
3. Jo 15,1 – 17,26
Estes discursos de Jesus devem ser lidos após a Missa na Ceia do Senhor e dos Salmos do Hallel. Procure lê-los com o coração, devagar, curtindo, como em câmara lenta, cada palavra do Senhor que se entregou. É um discurso de despedida, que termina com a Oração Sacerdotal de Jesus. Antes de ser entregue, ele se oferece por nós e por nós reza ao Pai.

4. Salmos 6, 32(31), 38(37), 51(50), 102(101), 130(129) e 143(142)
Após a Ceia, Jesus entrou numa profunda agonia, no Horto das Oliveiras. Seria ótimo terminar o dia com estes sete salmos. São os salmos penitenciais da Igreja. Reze-os por você, pela Igreja e pelo mundo inteiro, pelos quais o Cristo sofreu e Se entregou à morte. Reze-os como se fosse o próprio Cristo rezando pela sua voz. É verdade que Ele não teve nenhum pecado, mas nunca esqueça: Ele assumiu os nossos...

Sexta-feira da Paixão do Senhor

Neste santíssimo dia de jejum e abstinência de carne, devemos manter um respeitoso recolhimento, unindo-nos piedosamente Àquele que por nós Se entregou até a morte. Nada de atividades inúteis, nada de músicas profanas, nada de televisão dispersiva, nada de conversas inúteis!

Antes da Celebração da Paixão
Pela manhã, preparando-se para participar à tarde da Solene Ação Litúrgica da Paixão do Senhor, reze o seguinte:
1. Is 42,1-9; 49,1-7; 50,4-10; 52,13 – 53,12
São os quatro cânticos do Servo Sofredor. Eles prenunciam a paixão do Senhor e revelam os sentimentos do Seu coração bendito. Esses cânticos devem ser rezados com o “coração na mão”, com toda unção e devoção!

2. Salmos 21(22), 31(30) e 69(68)
Destes três salmos, dois (o 21 e o 31) foram citados por Jesus na cruz. Os três revelam os seus sentimentos, Ele, que tomou sobre Si todos os nossos pecados! Estes salmos devem ser rezados como que emprestando nossa voz ao próprio Cristo, reproduzindo em nós os Seus sentimentos benditos!

Após a Celebração da Paixão do Senhor:
3. Salmos 3, 5, 7, 10, 13(12), 17(16), 25(24), 27(26), 28(27), 35(34), 38(37), 42(41), 43(42), 54(53), 55(54), 56(55), 57(56), 59(58), 61(60), 63(64), 70(69), 71(70), 86(85), 88(87), 120(119), 140(139), 141(140), 142(141), 143(142)
Após a celebração da Paixão, ainda na Sexta-feira, procure rezar todos estes salmos. São muitos, mas recorde que este é um dia de penitência e oração.
Estes salmos devem ser rezados em união com o Cristo, que assumindo nossos pecados, tomou toda nossa dor, todo nosso medo, toda nossa infidelidade, toda nossa fraqueza. Se você rezar todos estes salmos, terá a graça imensa de compreender por dentro os sentimentos do Cristo na Sua paixão e morte e irá dormir em paz, como Ele: “Em paz Me deito e logo adormeço, porque só Tu, Senhor, Me fazes viver em segurança” (Sl 4,9).

Sábado Santo

Neste dia tremendo, a Igreja permanece em profundo silêncio, unida a Maria, Virgem da Soledade, no dia mais difícil de sua vida: dia de solidão imensa, de vazio sem fim, mas também dia de teimosa esperança na fidelidade do Senhor Deus.
Os mais generosos devem jejuar - este é um dia de jejum total: até de comunhão eucarística!
Deve-se manter um respeitoso recolhimento; nada de atividades mundanas e dispersivas! Hoje, é proibida a comunhão eucarística até mesmo aos doentes. Somente os doentes moribundos, às portas da morte, podem comungar.
A Igreja une-se a Cristo na Sua descida aos infernos, ao sheol, habitação dos tragados pela morte: Ele entrou de verdade na situação de cadáver, de defunto, de nada... Durante todo o dia, vá distribuindo os seguintes textos:

1. Todo o Livro das Lamentações
Neste livro, o Profeta canta a miséria e a esperança de Jerusalém e a sua própria. É Cristo, Quem canta a miséria e a esperança da Igreja, da humanidade toda e de cada um de nós: tudo assumido por Ele, todo o peso do mundo sobre Ele desabou! Reze as lamentações durante todo o dia, repartindo-a em cinco partes, de acordo com os capítulos.

2. Salmos 4, 16(15) e 139(138)
Estes três salmos devem ser rezados no sábado à tardinha ou no início da noite, mas antes da Santa Vigília Pascal. Os três já prenunciam a Ressurreição:
“Em paz Me deito e logo adormeço, porque só Tu, Senhor, Me fazes viver em segurança” (Sl 4,9),
“Bendigo ao Senhor que Me aconselha, e mesmo à noite, Meus rins Me instruem. Meu coração exulta e Minha carne repousa em segurança.. Ensinar-Me-ás o caminho da Vida” (Sl 16[15], 79) e
“Senhor, Tu conheces quando Me deito (na morte) e Me levanto (na ressurreição)... Sobre Mim Tu pões a Tua mão!” (Sl 139[138],2.5).

Domingo de Páscoa

Neste Dia santíssimo, "Dia que o Senhor fez para nós!" – o mais sagrado de todos, prenúncio do Dia sem fim, do Dia final – pode-se retomar os salmos da Santa Vigília pascal!

Durante o dia todo, vá curtindo os textos que narram as aparições do Ressuscitado. Não tente compará-los nem fazer uma sequência histórica dos fatos. É impossível! Aqui, cada texto tem sua mensagem, sua característica própria, sua vibração, seu encanto... 

São textos para serem curtidos com pura emoção e gratidão, com pura louvação ao Deus fiel, que ressuscitou o Seu Filho dentre os mortos, como primícias da ressurreição nossa e do mundo!

Leia-os na ordem que eu coloco aqui:

Mt 18,1-20; Lc 24,1-53; Mc 16,1-20; Jo 20,1 – 21,25

Durante toda a Oitava de Páscoa devemos nos desejar ardentemente “Feliz Páscoa!” Nossos irmãos orientais saúdam-se assim uns aos outros: “O Irmão Jesus ressuscitou!” e o outro responde: “Ressuscitou verdadeiramente!”

Eis agora a Páscoa, nossa Festa!

“Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

Está próxima a festa da Páscoa; não a dos judeus, mas a de Cristo, motivo e garantia da nossa. Toda a Igreja está se preparando para a Celebração, para a grande Festa, a maior dos cristãos: Cristo, nosso Cordeiro pascal, imolado por nós, para nossa salvação. Ele fez Sua Páscoa quando, na força do Espírito Santo, passou deste mundo para o Pai, desta vida mortal, para a plenitude da Glória imperecível: está sentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso!

Ressuscitado, Ele nos deu o Seu Espírito: derramou-O sobre Seus discípulos, sobre toda a humanidade, sobre toda a criação. Pela força desse Espírito, o mesmo que ressuscitou Jesus dentre os mortos, tudo será, um dia transfigurado, plenificado, ressuscitado: nós, o mundo, toda a criação – será a nossa Páscoa, pois na força do Espírito do Ressuscitado, passaremos deste mundo, desta vida, para a Glória. Por isso a grandeza desta festa – a Páscoa, a Passagem!

Pensemos bem: celebrá-la significa proclamar que a criação tem um rumo, um caminho, um destino: a glória do Pai, pois ela toda será plenificada pelo Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos. O cosmo caminha, portanto, para o Cristo glorificado: Ele que é o Alfa, o Princípio de tudo, é também o Ômega, o Fim, a Finalidade de toda a criação. O universo, então, não caminha para o acaso, para o indeterminado, o imprevisível. E o Ressuscitado, Senhor do cosmo, que é nosso porto, destino e descanso. É Ele Quem entregará, um dia, aquele Dia final, tudo ao Pai, para que o Pai seja tudo em todos!

Também a história humana – esta história tão marcada por realizações e lágrimas, momentos belos e ocasiões tão negras! É Cristo, o injustiçado, o macerado, o derrotado pela maldade do mundo, é Ele o Triunfador, o Vivente, o Príncipe morto que agora reina vivo. É Ele Quem tem nas mãos o livro selado, o livro da história humana. É Nele que um dia, no Último Dia, toda a história será passada a limpo. Por isso o cristão vive na esperança: ele sabe que vale a pena lutar para construir um mundo melhor, pois é para o Cristo que esse mundo caminha. A história não é uma realidade cega, sem lógica... Em Cristo tudo será iluminado: todo pranto será enxugado, toda injustiça será reparada, toda morte e as mortes todas serão vencidas!

Finalmente, celebrar a Páscoa significa crer que nossa vida pessoal e eclesial também caminha para o desabrochar na glória! A glória do Espírito de ressurreição, que o Pai derramou sobre o Filho, o Filho no-la dá: “Eu lhes dei a glória que Tu Me deste!” Nós ressuscitaremos, como Jesus e por causa de Jesus – é Ele nosso Destino, Modelo e Caminho! Então, nossa vida tem sentido, nossos sonhos e desafios são cheios de esperança, são promessa de futuro! Nós e toda a Igreja seremos transfigurados, plenificados: a Igreja será plenamente Esposa sem mancha do Cordeiro imolado e nós, completando o caminho iniciado no Batismo, traremos em nós a imagem perfeita e madura de Jesus Ressuscitado, o Homem Perfeito!

Eis a Páscoa nossa Festa, Festa da Igreja, Festa da humanidade, Festa da criação!
Tristes de nós, triste da Igreja, se celebrar a Páscoa ficando sempre a mesma, sem se contagiar pela esperança, sem a teimosia de construir, sem a força de recomeçar sempre, sem a graça de crer na vida, no bem e no amor. Ela, a Igreja, deve ser a primeira testemunha do Ressuscitado, e não somente na evocação do rito sagrado, na sonoridade da proclamação, mas também e sobretudo no compromisso e testemunho de seu modo de viver e no esforço de uma conversão contínua! Aí a Páscoa não será uma festa anual, mas será presença constante na nossa vida, numa vida pascal, que desembocará na Páscoa da glória!

Eis! Que nossa Páscoa permaneça para sempre!

sexta-feira, 27 de março de 2015

Retiro quaresmal - sexta-feira da V semana

Concluamos agora a nossa meditação sobre o Segundo Cântico do Servo Sofredor, viva profecia sobre o nosso Jesus:

“Assim diz o Senhor, o redentor, o Santo de Israel
Àquele cuja alma é desprezada, vilipendiada pela nação,
Ao Servo dos tiranos:
Reis o verão e se erguerão, príncipes o verão e se prostrarão,
Por causa do Senhor, que é fiel, do Santo de Israel, que Te escolheu!” (Is 49,7).


É assim que termina este segundo Cântico: de modo triunfante e dramático!
O Servo será humilhado, vilipendiado, rejeitado pelo Seu próprio povo. Os tiranos zombarão Dele – Herodes, Pilatos, os chefes do Sinedrio e tantos grandes de todos os tempos, grandes do poder político, econômico, grandes das ciências e universidades, grandes dos meios de comunicação...

No entanto, Ele triunfará: os grandes haverão de se prostrar diante Dele, conforme as palavras do Salmo 2:

“Os reis da terra se insurgem,/ e unidos os príncipes enfrentam/ o Senhor e o Seu Messias.../ O que habita nos céus ri,/ o Senhor Se diverte às custas deles.../ Publicarei o decreto do Senhor:/ Ele Me disse: ‘Tu és o Meu Filho, Eu hoje Te gerei!’”.

Sim, o Senhor Deus é fiel e não abandonará o Seu Servo, mas, atenção: não O livrará de passar pelo fogo e pelas águas profundas da privação e da morte!

- Senhor, Teus caminhos são misteriosos!
Teus desígnios, ó Deus bendito, nos são tão incompreensíveis;
deixam-nos confusos, inseguros, perplexos!
Até mesmo o Teu Servo, o Teu Bendito e Santo Filho,
Jesus nosso Senhor,
experimentou humanamente a vertigem de caminhar na Tua presença!
Por que és assim? Por que fazes assim?
Silêncio, mistério!
Quem pode caminhar Contigo,
a não ser o de coração de pobre, que se abandona nos Teus braços?
Quem pode confiar em Tu,
senão quem tem um coração de criança, que confia e espera contra toda a esperança?
Senhor, Deus Santo, Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo,
ensina-me os Teus caminhos para que eu ande na Tua vontade;
dá-me um coração pobre, simples, inteiro,
que tema o Teu Santo Nome e em Ti me abandone,
por Cristo,
com Cristo,
em Cristo,
mesmo até a cruz
e até a ressurreição!

Reze os Salmos 37/38 e 38/39...

quinta-feira, 26 de março de 2015

Retiro quaresmal - quinta-feira da V semana

Mais um dia rumo à Páscoa... Continuemos seguindo o Servo Sofredor, ainda no segunda cântico de Isaías Profeta:

“Mas, Eu disse: ‘Foi em vão que Me fatiguei,
Debalde, inutilmente, gastei as Minhas forças’.
E, no entanto, Meu direito está com o Senhor,
Meu salário está com o Meu Deus!” (Is 49,4).

Palavras impressionantes! O Servo entra em crise! Sua missão é árdua e Ele Se sente fracassado: tudo parece inútil, tudo parece perdido.
E, no entanto, contra toda esperança, Ele espera no Senhor Deus; contra toda lógica, Ele coloca no Senhor a Sua recompensa.
Assim, vai aparecendo que o Servo não cumprirá Sua missão sem passar pelo sofrimento e a aparente derrota!

“Mas agora disse o Senhor,
Aquele que Me modelou desde o ventre materno para ser Seu Servo,
Para reconduzir Jacó a Ele,
Para que a Ele se reúna Israel;
Assim serei glorificado aos olhos do Senhor,
Meu Deus será a Minha força!
Sim, Ele Me disse: ‘Pouca coisa é que sejas o Meu Servo
Para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os sobreviventes de Israel.
Também Te estabeleci como luz da nações,
A fim de que a Minha salvação chegue até as extremidades da terra’” (Is 49,5-6).

Note como o Servo vai narrando o diálogo que o Senhor Deus tem com Ele. Depois que o Servo apresentou ao Deus Santo Sua queixa, Seu cansaço, Sua terrível sensação de trabalhar por nada, de gastar a vida a toa, num vazio desolador, o Senhor O confirma na missão e lhe revela um horizonte largo, tão largo quanto o mundo!

Releia o texto e responda:
Quem é o Servo: todo o povo de Israel ou um personagem individual?
Observe que o Servo é Israel todo e também um personagem misterioso que o personifica, o concentra, dá-lhe sentido último. Já falei sobre isto numa das últimas meditações do nosso retiro.

Recoloco aqui o que apresentei antes: o próprio Cristo é a personificação de todo o povo de Israel, de modo que Israel se realiza, se cumpre, chega à sua plenitude em Cristo Jesus. Dou-lhe quatro exemplos dessa misteriosa realidade:

1. O filho chamado do Egito – referindo-se a Israel, quando era escravo no Egito e foi trazido pelo Senhor Deus para a Terra Santa, o profeta Oséias diz, em nome do Senhor: “Quando Israel era menino, Eu o amei e do Egito chamei Meu filho” (Os 11,1).
Ora, o Evangelho Segundo Mateus, narrando a volta de Jesus Menino do Egito, afirma que isto aconteceu “para que se cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta: ‘Do Egito chamei o Meu Filho’” (Mt 2,15).
Em outras palavras: Jesus é o verdadeiro Israel, Israel se cumpre, se realiza, encontra o seu sentido último em Jesus, o Salvador de todos os povos! Tudo quanto aconteceu com Israel era já mistério de Cristo!

2. A vinha amada – Em várias passagens do Antigo Testamento Israel é comparado a uma vinha amada por Deus: “A vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são Sua plantação preciosa” (cf. Is 5,1-7; Ez 15,1-8; Sl 80,9-19). Pois bem, no Evangelho Jesus afirma de modo surpreendente: “Eu sou a verdadeira videira!” (Jo 15,1).
Em outras palavras: não que Israel seja uma videira falsa, mas Israel é uma videira provisória. É Jesus a videira definitiva! A primeira era apenas imagem da segunda! Tudo quanto aconteceu a primeira preparava a segunda!

3. O servo sofredor – Na profecia de Isaías aparece a misteriosa e impressionante figura do Servo sofredor, que ora é o povo todo, ora é alguém que morrerá pelo povo (cf. Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13 – 53,12).
Este Servo que personifica todo o povo de Israel e o redime é Jesus nosso Senhor, que dá a vida por toda a humanidade e vem a ser luz da nações para que a salvação chegue até os confins da terra (cf. Mt 12,18-21; 11,1-9; Mt 3,16-17; Lc 2,32; Mt 8,17; 1Pd 2,24-25; At 8,32-33; Mt 27,38; Mc 15,28, etc).

4. O ressuscitado ao terceiro dia – Depois das provações do Exílio, que serão como uma morte, Deus promete ressuscitar o Seu povo: “Ele nos despedaçou, Ele nos curará; Ele feriu, Ele nos ligará a ferida. Depois de dois dias nos fará reviver, no terceiro dia nos levantará” (Os 6,1-2). Essa morte e ressurreição de Israel cumpriu-se na própria morte e ressurreição do Senhor, ressuscitado ao terceiro dia “conforme as Escrituras”.

Vamos adiante. “Assim serei glorificado aos olhos do Senhor!” Não tem jeito: mesmo com todo o sofrimento, com toda a dificuldade, com toda a tentação de desânimo, a glória do Servo está em ser fiel até o fim, em realizar a vontade do Senhor Deus... Como diz o Autor da Carta aos Hebreus, Ele terá de aprender a obedecer pelo sofrimento e somente assim tornar-se-á perfeito na glorificação que o Pai lhe dará (cf. Hb 5,8-9). Mas, esse Servo bendito não precisa ter medo: o Senhor Deus, que é fidelíssimo, estará com Ele, será a Sua força e o Seu amparo. O Servo deverá aprender a confiar no Eterno, a colocar Seu arrimo no Deus Santo de Israel!

Finalmente, o Santo revela ao Seu Servo toda a grandeza da Sua missão: Ele será o Salvador de Israel, mas isto ainda é pouco! Agora cumprir-se-á, naquele Servo humilhado e frágil, a promessa feita a Abraão: “Todas as nações da terra serão abençoadas em ti!” Sim: é pouco que o Servo resgate Israel do seu pecado! Ele será feito pelo Deus de Israel luz das nações, de modo que a salvação do Senhor chegue até os confins da terra. O Deus de Israel será conhecido por todos os povos, graças ao sofrimento do Seu Servo! Profecia impressionante, repetida pelo Velho Simeão: “Meus olhos viram a Tua salvação, Senhor: luz para iluminar as nações e glória do Teu povo, Israel!” (Lc 2,32). Eis, que mistério: a glória de Israel não está em fechar-se em si mesmo, mas em acolher o Messias-Servo e fazê-Lo conhecido de todos os povos! Israel não foi chamado por Deus para si mesmo, mas para ser ministro da salvação de todos os povos! Foi isto que o antigo povo não compreendeu...

Reze o Sl 34/35

quarta-feira, 25 de março de 2015

Retiro Quaresmal - quarta-feira da V semana

Continuemos nosso caminho para a Grande Semana. Contemplemos o Senhor na Sua Paixão, meditando agora o segundo Cântico do Servo Sofredor (cf. Is 49,1-7):

“Ilhas, ouvi-Me!
Povos distantes, prestai atenção!”

Enquanto no primeiro Cântico era o Senhor Deus quem falava, apresentando o Seu Servo, agora, neste segundo Cântico, é o Servo quem fala, apresentando a Sua missão; e dirige-Se não a Israel, mas a todos os povos da terra.

É impressionante esta dimensão de universalidade da missão do Servo. Este personagem tão misterioso viria, certamente de Israel e para a salvação de Israel, mas também e de modo final, para toda a humanidade!
É o mundo inteiro que necessita de salvação, de sentido, de abrir-se para o Eterno para não perecer sufocado pela mesmice dos estreitos labirintos da humana existência...
Pense bem: o quanto o homem sozinho é incapaz de encontrar um sentido profundo para sua vida, seus atos, seu caminho, sua dor, sua solidão, sua morte...

“Desde o seio materno o Senhor Me chamou,
desde o ventre de Minha mãe pronunciou o Meu nome.
De Minha boca fez uma espada cortante,
Abrigou-Me à sombra de Sua mão;
Fez de Mim uma seta afiada,
Escondeu-Me na Sua aljava” (Is 49,1b-2).

O Servo não vem por Ele mesmo, autônomo, para viver e fazer do Seu modo: foi escolhido pelo Senhor Deus, foi por Ele plasmado e enviado.
Como Jeremias e tantos outros profetas, foi conhecido pelo Senhor e Dele recebeu o nome antes mesmo de nascer. Seu caminho está traçado, Sua missão está definida.
Cabe ao Servo sê-lhe fiel e realizar plenamente o quanto o Deus de Israel determinou.

É este tremendo caminho de obediência que Jesus fará: Ele sabe e diz todo o tempo que não veio por Si mesmo, mas veio do Pai e fala e realiza somente aquilo que o Pai Lhe determinou.

Por isso mesmo, esse Servo manso – como se viu no primeiro Cântico – tem uma palavra que é espada cortante, porque Palavra do próprio Deus, que ilumina, julga, denuncia e salva. O Servo é como uma flecha na mão do Santo de Israel: Ele é Sua arma, pela qual o Senhor Deus triunfará no Seu desígnio.

Para cumprir Sua missão, o Servo pode contar com a proteção do Senhor, que o protege com Sua mão, que O abriga e socorre; o Senhor guarda o Seu Servo como um guerreiro guarda sua arma na aljava. Que acontecerá com esse Servo, de missão tão árdua e tão protegido pelo Senhor?

“Disse-Me: ‘Tu és Meu Servo, Israel,
Em quem Me glorificarei’” (Is 49,3).

Quem é o Servo? É uma pessoa ou é o inteiro povo de Israel? Guarde bem esta pergunta!
Aqui aparece como sendo Israel. No entanto, no primeiro Cântico, o Senhor já disse que este Servo será aliança com o povo de Israel... Guarde bem estas coisas!
Agora basta observar como o próprio Servo testemunha o que Ele mesmo escutou do Senhor Deus: Tu és o Meu Servo! Eu vou Me glorificar em Ti!

Pense em Jesus, que em todo o tempo procurou sempre a glória do Pai: Pai, glorifica o Teu Nome! Toda a vida do Servo, toda a Sua missão será render glória ao Pai, obedecendo-O, realizando plenamente a Sua santa vontade.

Agora pense na sua vida:
Tem sido uma procura de Deus?
Sua existência é vivida na obediência ao Senhor ou na rebeldia, como se você fosse autônomo? Hoje vivemos no mundo da autonomia diante de Deus... O homem se pensa autônomo; esse bicho do qual se Deus retirasse a chuva, o sol e o ar, pereceria na morte...

Reze o Salmo 39/40