sábado, 28 de março de 2015

Eis agora a Páscoa, nossa Festa!

“Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

Está próxima a festa da Páscoa; não a dos judeus, mas a de Cristo, motivo e garantia da nossa. Toda a Igreja está se preparando para a Celebração, para a grande Festa, a maior dos cristãos: Cristo, nosso Cordeiro pascal, imolado por nós, para nossa salvação. Ele fez Sua Páscoa quando, na força do Espírito Santo, passou deste mundo para o Pai, desta vida mortal, para a plenitude da Glória imperecível: está sentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso!

Ressuscitado, Ele nos deu o Seu Espírito: derramou-O sobre Seus discípulos, sobre toda a humanidade, sobre toda a criação. Pela força desse Espírito, o mesmo que ressuscitou Jesus dentre os mortos, tudo será, um dia transfigurado, plenificado, ressuscitado: nós, o mundo, toda a criação – será a nossa Páscoa, pois na força do Espírito do Ressuscitado, passaremos deste mundo, desta vida, para a Glória. Por isso a grandeza desta festa – a Páscoa, a Passagem!

Pensemos bem: celebrá-la significa proclamar que a criação tem um rumo, um caminho, um destino: a glória do Pai, pois ela toda será plenificada pelo Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos. O cosmo caminha, portanto, para o Cristo glorificado: Ele que é o Alfa, o Princípio de tudo, é também o Ômega, o Fim, a Finalidade de toda a criação. O universo, então, não caminha para o acaso, para o indeterminado, o imprevisível. E o Ressuscitado, Senhor do cosmo, que é nosso porto, destino e descanso. É Ele Quem entregará, um dia, aquele Dia final, tudo ao Pai, para que o Pai seja tudo em todos!

Também a história humana – esta história tão marcada por realizações e lágrimas, momentos belos e ocasiões tão negras! É Cristo, o injustiçado, o macerado, o derrotado pela maldade do mundo, é Ele o Triunfador, o Vivente, o Príncipe morto que agora reina vivo. É Ele Quem tem nas mãos o livro selado, o livro da história humana. É Nele que um dia, no Último Dia, toda a história será passada a limpo. Por isso o cristão vive na esperança: ele sabe que vale a pena lutar para construir um mundo melhor, pois é para o Cristo que esse mundo caminha. A história não é uma realidade cega, sem lógica... Em Cristo tudo será iluminado: todo pranto será enxugado, toda injustiça será reparada, toda morte e as mortes todas serão vencidas!

Finalmente, celebrar a Páscoa significa crer que nossa vida pessoal e eclesial também caminha para o desabrochar na glória! A glória do Espírito de ressurreição, que o Pai derramou sobre o Filho, o Filho no-la dá: “Eu lhes dei a glória que Tu Me deste!” Nós ressuscitaremos, como Jesus e por causa de Jesus – é Ele nosso Destino, Modelo e Caminho! Então, nossa vida tem sentido, nossos sonhos e desafios são cheios de esperança, são promessa de futuro! Nós e toda a Igreja seremos transfigurados, plenificados: a Igreja será plenamente Esposa sem mancha do Cordeiro imolado e nós, completando o caminho iniciado no Batismo, traremos em nós a imagem perfeita e madura de Jesus Ressuscitado, o Homem Perfeito!

Eis a Páscoa nossa Festa, Festa da Igreja, Festa da humanidade, Festa da criação!
Tristes de nós, triste da Igreja, se celebrar a Páscoa ficando sempre a mesma, sem se contagiar pela esperança, sem a teimosia de construir, sem a força de recomeçar sempre, sem a graça de crer na vida, no bem e no amor. Ela, a Igreja, deve ser a primeira testemunha do Ressuscitado, e não somente na evocação do rito sagrado, na sonoridade da proclamação, mas também e sobretudo no compromisso e testemunho de seu modo de viver e no esforço de uma conversão contínua! Aí a Páscoa não será uma festa anual, mas será presença constante na nossa vida, numa vida pascal, que desembocará na Páscoa da glória!

Eis! Que nossa Páscoa permaneça para sempre!

sexta-feira, 27 de março de 2015

Retiro quaresmal - sexta-feira da V semana

Concluamos agora a nossa meditação sobre o Segundo Cântico do Servo Sofredor, viva profecia sobre o nosso Jesus:

“Assim diz o Senhor, o redentor, o Santo de Israel
Àquele cuja alma é desprezada, vilipendiada pela nação,
Ao Servo dos tiranos:
Reis o verão e se erguerão, príncipes o verão e se prostrarão,
Por causa do Senhor, que é fiel, do Santo de Israel, que Te escolheu!” (Is 49,7).


É assim que termina este segundo Cântico: de modo triunfante e dramático!
O Servo será humilhado, vilipendiado, rejeitado pelo Seu próprio povo. Os tiranos zombarão Dele – Herodes, Pilatos, os chefes do Sinedrio e tantos grandes de todos os tempos, grandes do poder político, econômico, grandes das ciências e universidades, grandes dos meios de comunicação...

No entanto, Ele triunfará: os grandes haverão de se prostrar diante Dele, conforme as palavras do Salmo 2:

“Os reis da terra se insurgem,/ e unidos os príncipes enfrentam/ o Senhor e o Seu Messias.../ O que habita nos céus ri,/ o Senhor Se diverte às custas deles.../ Publicarei o decreto do Senhor:/ Ele Me disse: ‘Tu és o Meu Filho, Eu hoje Te gerei!’”.

Sim, o Senhor Deus é fiel e não abandonará o Seu Servo, mas, atenção: não O livrará de passar pelo fogo e pelas águas profundas da privação e da morte!

- Senhor, Teus caminhos são misteriosos!
Teus desígnios, ó Deus bendito, nos são tão incompreensíveis;
deixam-nos confusos, inseguros, perplexos!
Até mesmo o Teu Servo, o Teu Bendito e Santo Filho,
Jesus nosso Senhor,
experimentou humanamente a vertigem de caminhar na Tua presença!
Por que és assim? Por que fazes assim?
Silêncio, mistério!
Quem pode caminhar Contigo,
a não ser o de coração de pobre, que se abandona nos Teus braços?
Quem pode confiar em Tu,
senão quem tem um coração de criança, que confia e espera contra toda a esperança?
Senhor, Deus Santo, Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo,
ensina-me os Teus caminhos para que eu ande na Tua vontade;
dá-me um coração pobre, simples, inteiro,
que tema o Teu Santo Nome e em Ti me abandone,
por Cristo,
com Cristo,
em Cristo,
mesmo até a cruz
e até a ressurreição!

Reze os Salmos 37/38 e 38/39...

quinta-feira, 26 de março de 2015

Retiro quaresmal - quinta-feira da V semana

Mais um dia rumo à Páscoa... Continuemos seguindo o Servo Sofredor, ainda no segunda cântico de Isaías Profeta:

“Mas, Eu disse: ‘Foi em vão que Me fatiguei,
Debalde, inutilmente, gastei as Minhas forças’.
E, no entanto, Meu direito está com o Senhor,
Meu salário está com o Meu Deus!” (Is 49,4).

Palavras impressionantes! O Servo entra em crise! Sua missão é árdua e Ele Se sente fracassado: tudo parece inútil, tudo parece perdido.
E, no entanto, contra toda esperança, Ele espera no Senhor Deus; contra toda lógica, Ele coloca no Senhor a Sua recompensa.
Assim, vai aparecendo que o Servo não cumprirá Sua missão sem passar pelo sofrimento e a aparente derrota!

“Mas agora disse o Senhor,
Aquele que Me modelou desde o ventre materno para ser Seu Servo,
Para reconduzir Jacó a Ele,
Para que a Ele se reúna Israel;
Assim serei glorificado aos olhos do Senhor,
Meu Deus será a Minha força!
Sim, Ele Me disse: ‘Pouca coisa é que sejas o Meu Servo
Para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os sobreviventes de Israel.
Também Te estabeleci como luz da nações,
A fim de que a Minha salvação chegue até as extremidades da terra’” (Is 49,5-6).

Note como o Servo vai narrando o diálogo que o Senhor Deus tem com Ele. Depois que o Servo apresentou ao Deus Santo Sua queixa, Seu cansaço, Sua terrível sensação de trabalhar por nada, de gastar a vida a toa, num vazio desolador, o Senhor O confirma na missão e lhe revela um horizonte largo, tão largo quanto o mundo!

Releia o texto e responda:
Quem é o Servo: todo o povo de Israel ou um personagem individual?
Observe que o Servo é Israel todo e também um personagem misterioso que o personifica, o concentra, dá-lhe sentido último. Já falei sobre isto numa das últimas meditações do nosso retiro.

Recoloco aqui o que apresentei antes: o próprio Cristo é a personificação de todo o povo de Israel, de modo que Israel se realiza, se cumpre, chega à sua plenitude em Cristo Jesus. Dou-lhe quatro exemplos dessa misteriosa realidade:

1. O filho chamado do Egito – referindo-se a Israel, quando era escravo no Egito e foi trazido pelo Senhor Deus para a Terra Santa, o profeta Oséias diz, em nome do Senhor: “Quando Israel era menino, Eu o amei e do Egito chamei Meu filho” (Os 11,1).
Ora, o Evangelho Segundo Mateus, narrando a volta de Jesus Menino do Egito, afirma que isto aconteceu “para que se cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta: ‘Do Egito chamei o Meu Filho’” (Mt 2,15).
Em outras palavras: Jesus é o verdadeiro Israel, Israel se cumpre, se realiza, encontra o seu sentido último em Jesus, o Salvador de todos os povos! Tudo quanto aconteceu com Israel era já mistério de Cristo!

2. A vinha amada – Em várias passagens do Antigo Testamento Israel é comparado a uma vinha amada por Deus: “A vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são Sua plantação preciosa” (cf. Is 5,1-7; Ez 15,1-8; Sl 80,9-19). Pois bem, no Evangelho Jesus afirma de modo surpreendente: “Eu sou a verdadeira videira!” (Jo 15,1).
Em outras palavras: não que Israel seja uma videira falsa, mas Israel é uma videira provisória. É Jesus a videira definitiva! A primeira era apenas imagem da segunda! Tudo quanto aconteceu a primeira preparava a segunda!

3. O servo sofredor – Na profecia de Isaías aparece a misteriosa e impressionante figura do Servo sofredor, que ora é o povo todo, ora é alguém que morrerá pelo povo (cf. Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13 – 53,12).
Este Servo que personifica todo o povo de Israel e o redime é Jesus nosso Senhor, que dá a vida por toda a humanidade e vem a ser luz da nações para que a salvação chegue até os confins da terra (cf. Mt 12,18-21; 11,1-9; Mt 3,16-17; Lc 2,32; Mt 8,17; 1Pd 2,24-25; At 8,32-33; Mt 27,38; Mc 15,28, etc).

4. O ressuscitado ao terceiro dia – Depois das provações do Exílio, que serão como uma morte, Deus promete ressuscitar o Seu povo: “Ele nos despedaçou, Ele nos curará; Ele feriu, Ele nos ligará a ferida. Depois de dois dias nos fará reviver, no terceiro dia nos levantará” (Os 6,1-2). Essa morte e ressurreição de Israel cumpriu-se na própria morte e ressurreição do Senhor, ressuscitado ao terceiro dia “conforme as Escrituras”.

Vamos adiante. “Assim serei glorificado aos olhos do Senhor!” Não tem jeito: mesmo com todo o sofrimento, com toda a dificuldade, com toda a tentação de desânimo, a glória do Servo está em ser fiel até o fim, em realizar a vontade do Senhor Deus... Como diz o Autor da Carta aos Hebreus, Ele terá de aprender a obedecer pelo sofrimento e somente assim tornar-se-á perfeito na glorificação que o Pai lhe dará (cf. Hb 5,8-9). Mas, esse Servo bendito não precisa ter medo: o Senhor Deus, que é fidelíssimo, estará com Ele, será a Sua força e o Seu amparo. O Servo deverá aprender a confiar no Eterno, a colocar Seu arrimo no Deus Santo de Israel!

Finalmente, o Santo revela ao Seu Servo toda a grandeza da Sua missão: Ele será o Salvador de Israel, mas isto ainda é pouco! Agora cumprir-se-á, naquele Servo humilhado e frágil, a promessa feita a Abraão: “Todas as nações da terra serão abençoadas em ti!” Sim: é pouco que o Servo resgate Israel do seu pecado! Ele será feito pelo Deus de Israel luz das nações, de modo que a salvação do Senhor chegue até os confins da terra. O Deus de Israel será conhecido por todos os povos, graças ao sofrimento do Seu Servo! Profecia impressionante, repetida pelo Velho Simeão: “Meus olhos viram a Tua salvação, Senhor: luz para iluminar as nações e glória do Teu povo, Israel!” (Lc 2,32). Eis, que mistério: a glória de Israel não está em fechar-se em si mesmo, mas em acolher o Messias-Servo e fazê-Lo conhecido de todos os povos! Israel não foi chamado por Deus para si mesmo, mas para ser ministro da salvação de todos os povos! Foi isto que o antigo povo não compreendeu...

Reze o Sl 34/35

quarta-feira, 25 de março de 2015

Retiro Quaresmal - quarta-feira da V semana

Continuemos nosso caminho para a Grande Semana. Contemplemos o Senhor na Sua Paixão, meditando agora o segundo Cântico do Servo Sofredor (cf. Is 49,1-7):

“Ilhas, ouvi-Me!
Povos distantes, prestai atenção!”

Enquanto no primeiro Cântico era o Senhor Deus quem falava, apresentando o Seu Servo, agora, neste segundo Cântico, é o Servo quem fala, apresentando a Sua missão; e dirige-Se não a Israel, mas a todos os povos da terra.

É impressionante esta dimensão de universalidade da missão do Servo. Este personagem tão misterioso viria, certamente de Israel e para a salvação de Israel, mas também e de modo final, para toda a humanidade!
É o mundo inteiro que necessita de salvação, de sentido, de abrir-se para o Eterno para não perecer sufocado pela mesmice dos estreitos labirintos da humana existência...
Pense bem: o quanto o homem sozinho é incapaz de encontrar um sentido profundo para sua vida, seus atos, seu caminho, sua dor, sua solidão, sua morte...

“Desde o seio materno o Senhor Me chamou,
desde o ventre de Minha mãe pronunciou o Meu nome.
De Minha boca fez uma espada cortante,
Abrigou-Me à sombra de Sua mão;
Fez de Mim uma seta afiada,
Escondeu-Me na Sua aljava” (Is 49,1b-2).

O Servo não vem por Ele mesmo, autônomo, para viver e fazer do Seu modo: foi escolhido pelo Senhor Deus, foi por Ele plasmado e enviado.
Como Jeremias e tantos outros profetas, foi conhecido pelo Senhor e Dele recebeu o nome antes mesmo de nascer. Seu caminho está traçado, Sua missão está definida.
Cabe ao Servo sê-lhe fiel e realizar plenamente o quanto o Deus de Israel determinou.

É este tremendo caminho de obediência que Jesus fará: Ele sabe e diz todo o tempo que não veio por Si mesmo, mas veio do Pai e fala e realiza somente aquilo que o Pai Lhe determinou.

Por isso mesmo, esse Servo manso – como se viu no primeiro Cântico – tem uma palavra que é espada cortante, porque Palavra do próprio Deus, que ilumina, julga, denuncia e salva. O Servo é como uma flecha na mão do Santo de Israel: Ele é Sua arma, pela qual o Senhor Deus triunfará no Seu desígnio.

Para cumprir Sua missão, o Servo pode contar com a proteção do Senhor, que o protege com Sua mão, que O abriga e socorre; o Senhor guarda o Seu Servo como um guerreiro guarda sua arma na aljava. Que acontecerá com esse Servo, de missão tão árdua e tão protegido pelo Senhor?

“Disse-Me: ‘Tu és Meu Servo, Israel,
Em quem Me glorificarei’” (Is 49,3).

Quem é o Servo? É uma pessoa ou é o inteiro povo de Israel? Guarde bem esta pergunta!
Aqui aparece como sendo Israel. No entanto, no primeiro Cântico, o Senhor já disse que este Servo será aliança com o povo de Israel... Guarde bem estas coisas!
Agora basta observar como o próprio Servo testemunha o que Ele mesmo escutou do Senhor Deus: Tu és o Meu Servo! Eu vou Me glorificar em Ti!

Pense em Jesus, que em todo o tempo procurou sempre a glória do Pai: Pai, glorifica o Teu Nome! Toda a vida do Servo, toda a Sua missão será render glória ao Pai, obedecendo-O, realizando plenamente a Sua santa vontade.

Agora pense na sua vida:
Tem sido uma procura de Deus?
Sua existência é vivida na obediência ao Senhor ou na rebeldia, como se você fosse autônomo? Hoje vivemos no mundo da autonomia diante de Deus... O homem se pensa autônomo; esse bicho do qual se Deus retirasse a chuva, o sol e o ar, pereceria na morte...

Reze o Salmo 39/40

segunda-feira, 23 de março de 2015

Retiro Quaresmal - Terça-feira da V semana

Meditemos ainda sobre os versículos do I Cântico do Servo Sofredor:

“Eu sou o Senhor; este é o Meu Nome!
Não cederei a outrem a Minha glória,
Nem a Minha honra aos ídolos.
As primeiras coisas já se realizaram,
Agora vos anuncio
Outras, novas;
Antes que elas surjam,
Eu vo-las anuncio!” (Is 42,8-9).


Trata-se da conclusão soleníssima! deste primeiro poema!

O Senhor Deus empenha o Seu Nome, a Sua glória, a Sua grandeza na missão do Servo!

O verdadeiro Deus – não os ídolos! – Se revela no Servo manso e humilhado. O Deus de Israel nada tem a ver com a “teologia da prosperidade”, com o pensamento de um Messias poderoso, guerreiro, triunfante dos triunfos deste mundo! Tudo isto é idolatria, é imagem de um falso deus! O Deus único e verdadeiro é o que Se manifesta na pobreza humilde do Servo sofredor!
A lógica de Deus é impressionante; dá um nó na nossa lógica! Somente nos convertendo poderemos acolhê-la!

O Senhor termina recordando a Sua fidelidade: o que Ele afirmou no passado cumpriu-se: Ele fez Israel sair do Egito, Ele deu a terra ao Seu povo, Ele o libertou dos seus inimigos, Ele castigou Israel por sua infidelidade... Tudo cumpriu-se...

Que ninguém duvide: o que Ele agora anuncia, tão misterioso, tão inesperado, tão escandaloso (Seu Servo pobre e humilde, que vai triunfar trazendo a salvação) acontecerá sem dúvida alguma! É, realmente, uma coisa nova, inesperada, nunca imaginada pela humanidade!

Reflita: os pensamentos do Senhor, os Seus modos, não são os nossos... Você está disposto a se converter aos modos, aos tempos, à lógica do Senhor?

Reze o Salmo 30/31, unindo-se a Cristo no mistério da Sua paixão.

Retiro quaresmal - segunda-feira da V semana

Ainda estamos meditando sobre o I Cântico do Servo Sofredor:

"Não vacilará nem desacorçoará
até que estabeleça o direito na terra;
e as ilhas aguardem Seu ensinamento” (Is 42,4).

Se o Servo é humilde e manso, mas que ninguém se iluda: Ele não desiste! 
Confiando no Senhor Deus, persistirá na Sua missão de levar o direito de Deus, a adoração, o serviço e a verdade amorosa do único Deus até os confina da terra. As ilhas, no Antigo Testamento, significam as nações mais distantes, os extremos da terra.

É impressionante como já o Antigo Testamento previa sua própria superação. Quando viesse o Servo-Messias, o Deus de Israel seria o Deus de toda a humanidade, graças a obra do Ungido, Daquele sobre quem o Senhor Deus derramara o Seu Espírito!
Vá observando, caro Amigo, como tudo isto se cumpriu de modo impressionante no Senhor nosso Jesus Cristo!

Continuemos ainda escutando a Escritura:

"Assim diz Deus, o Senhor,
que criou os céus e os estendeu,
que firmou a terra e o que ela produz,
que deu o alento aos que a povoam
e o sopro de vida aos que se movem sobre ela:
‘Eu, o Senhor, Te chamei para o serviço da justiça,
Tomei-te pela mão e Te modelei,
Eu Te constitui como aliança do povo,
como luz das nações,
a fim de abrires os olhos aos cegos,
a fim de soltares do cárcere os presos,
e da prisão os que habitam nas trevas!’” (Is 42,6-7).

O Senhor Deus agora, de modo soleníssimo, faz uma declaração ao Seu Servo. Observe: Deus recorda que Ele é o Altíssimo, o Senhor de tudo, Senhor de Israel, mas ainda mais: Senhor de toda a terra, de todo o ser vivente!
O Servo não terá uma missão simplesmente circunscrita a Israel, o povo da antiga Aliança. Sua missão atingirá todos os seres e toda a humanidade, que vive porque o Senhor Deus a todos criou e a todos dá o sopro de vida.

Que diz o Senhor Deus ao Seu Servo?

(1) “Eu Te modelei!” Que mistério! O Filho eterno, Deus igual ao Pai, foi realmente criado na Sua humanidade igual à nossa! Sendo Deus, fez-Se homem; sendo Senhor, fez-Se servo; sendo rico, fez-Se pobre; sendo eterno, fez-Se criança; sendo infinito, fez-Se mortal limitado! Estas palavras impressionantes encontram eco nas palavras do próprio Cristo Jesus ao entrar no mundo: “Tu não quiseste sacrifícios e oferenda. Tu, porém, formaste-Me um corpo. Holocausto e sacrifícios pelo pecado não foram do Teu agrado. Por isso Eu digo: Eis-Me aqui – no rolo do Livro está escrito a Meu respeito – Eu vim, ó Deus, para fazer Tua vontade!” (Hb 10,5-7). O Filho toma a forma de Servo e vem para obedecer, para humanamente entregar-Se de modo total ao Pai em nosso favor. Vem corrigir com o seu “sim” o “não” que Adão (e Adão somos todos nós!) disse a Deus, perdendo o rumo de sua existência e o caminho da salvação.

(2) “Eu Te chamei para o serviço da justiça!” Não se trata aqui de qualquer justiça. A justiça, nas Escrituras Sagradas, é, sobretudo, e radicalmente a obediência ao Senhor Deus. O justo é o obediente ao Senhor, o que cumpre Sua santa vontade. É esta a justiça que é raiz de toda outra justiça. A justiça humana que não brota da justiça (retidão) para com Deus é capenga, tem pernas curtas! O Servo vem para levar a vontade de Deus a toda a humanidade e chamar todos à obediência da fé!

(3) “Eu Te constitui como aliança do povo, como luz das nações”. Impressionante! O Servo primeiro vem para o povo de Israel. A nova e eterna Aliança que Ele traz é primeiro ofertada aos judeus (cf. Mt 10,5-6). Se o povo de Israel desejar realmente fazer a vontade do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, deve acolher Jesus como Messias e entrar na nova Aliança no Seu sangue. Mas, Jesus veio também para todos os povos: “Eu sou a luz do mundo!” Como profetizou o Velho Simeão: “Luz para iluminar as nações e glória de Teu povo, Israel” (Lc 2,32).

(4) “A fim de abrires os olhos aos cegos, a fim de soltares do cárcere os presos, e da prisão os que habitam nas trevas”. Eis aqui: o Servo vem para salvar, para libertar uma humanidade presa em tantos cárceres, cega de tantas cegueiras, privada de luz, porque confia em suas próprias trevas. Ainda hoje é esta a missão do Senhor. Aquele que Nele crê e o acolhe, aquele que cumprindo Seu desejo, recebe o Batismo e ingressa na Sua santa Igreja, aquele que comunga Seu Corpo e Sangue na Eucaristia e vive na Sua vontade, livra-se das cadeias da morte, do poder das trevas e vive na luz!

Reze o Salmo 71/72, pensando no Cristo humilhado e glorioso: é Ele o Rei verdadeiro nosso e do mundo.

domingo, 22 de março de 2015

V Domingo da Quaresma: Elevado para atrair e salvar!

Caríssimos, às portas da Semana Santa, concentremos, neste Domingo, todo o nosso olhar no Senhor nosso, Jesus Cristo, e na Sua missão salvadora.

Para isto, comecemos pelo belíssimo evangelho deste hoje. Contemplemos o Senhor! Contemplemo-Lo com os olhos, contemplemo-Lo com a fé, contemplemo-Lo com o coração!

Jesus estava no interior do Templo de Jerusalém, no pátio interno, chamado Pátio de Israel. Ali, nenhum pagão podia entrar, sob pena de morte. Pois bem, dois gregos, dois pagãos que certamente habitavam na Terra Santa, provavelmente na Gelileia, aproximaram-se de Filipe, que certamente estava na parte mais externa, no chamado Pátio dos Gentios, até onde qualquer pessoa podia chegar.

Dois gentios, chamados “tementes a Deus”, que procuravam com fervor o Deus de Israel, tanto que “tinham subido a Jerusalém para adorar durante a festa”.

Com humildade, eles pedem: “Gostaríamos de ver Jesus!” Eles não podiam entrar no Templo, não poderiam ver Jesus, a não ser que Este saísse e viesse aonde eles estavam.

Filipe, então, foi a Jesus e Lhe relatou o pedido dos gregos.

O Senhor não responde de modo direto; com palavras misteriosas, afirmou: “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado!”

Que mistério, caríssimos: para que os pagãos vejam Jesus, isto é, para que O contemplem com os olhos da fé, para que Nele creiam e Nele tenham a Vida eterna, é necessário que Jesus seja glorificado pela cruz e pela ressurreição! É necessário que Jesus, grão de trigo, que se faz Eucaristia, morra e dê fruto – e este fruto é toda a humanidade, judeus e gentios que Nele acreditarão e Nele serão o novo Povo, da Nova Aliança e por causa Dele terão a Vida eterna: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz fruto”.

Jesus entregará ao Pai a Sua vida, para frutificar em salvação para nós, para que possamos vê-Lo, contemplá-Lo e experimentá-Lo como nossa Luz e nossa Vida! Quanto custosa foi a nossa redenção! Quão doloroso o sim de Deus à humanidade: entregou o Seu Filho, glorificando-O na cruz e na ressurreição, para que Nele tivéssemos Vida divina!

Como não pode ser banal a nossa resposta a um amor assim!

Como não podemos brincar de ser cristãos!

Como não podemos crer de faz de conta e de seguir a Jesus nosso Senhor sem renunciar ao pecado por Ele!

Irmãos, não foi fácil a Sua missão! A vida de Nosso Senhor foi toda ela uma entrega de amor, que culminou com a entrega mais absoluta na cruz. E isso custou!

Como não nos impressionar com as misteriosas palavras da Epístola aos Hebreus? “Cristo, nos dias de Sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas com forte clamor e lágrimas, Àquele que era capaz de salvá-Lo da morte. Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que Ele sofreu. Mas, na consumação de Sua vida, tornou-Se causa de salvação eterna para todos os que Lhe obedecem!”

Que mistério tão grande, tão adorável!

O Filho foi se consumindo durante toda a vida, fazendo-Se, por nós, obediente ao Pai, até a morte e morte de cruz! O Filho amado, durante toda a sua existência humana foi, humildemente, buscando a vontade do Pai e a ela Se entregando, mesmo quando foi percebendo que a vontade do Pai querido apontava para a cruz! Assim, tornou-Se causa de salvação para todos nós, para os judeus e para os pagãos! Quanto tudo isso custou: “Agora sinto-Me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-Me desta hora?’ Mas foi precisamente para esta hora que Eu vim. Pai, glorifica o Teu Nome!” 

Em Cristo, caríssimos, vai cumprir-se a promessa que o Senhor fizera pelo Profeta Jeremias: “Eis que virão dias em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança: imprimirei minha lei em suas entranhas e hei de inscrevê-la em seu coração. Todos Me reconhecerão, pois perdoarei sua maldade e não mais lembrarei o seu pecado”.

Eis, irmãos e irmãs: é na glorificação de Cristo – Sua morte e ressurreição - que judeus e gentios entrarão para a nova e eterna Aliança no sangue do Senhor!

Quanto somos valiosos, quanto custamos em dores e sacrifício, em doação e trabalhos ao Senhor! 

Quanto deveríamos amar Àquele que nos amou até a morte e morte de cruz!

Por isso mesmo São Pedro exclamará: “Sabeis que não foi com coisas perecíveis, com prata ou com ouro, que fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais, mas pelo sangue precioso de Cristo” (1Pd 1,18).

E, no entanto, caríssimos em Cristo, é a cruz do Senhor, é Seu sacrifício amoroso ao Pai por nós, o critério do julgamento do mundo.

Não são os grandes, os crucificadores, que salvam, mas o pobre e impotente Crucificado: “É agora o julgamento deste mundo. Agora o Chefe deste mundo vai ser expulso, e Eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a Mim”.

Compreendeis, meus caros, o que o Senhor está dizendo?

Sua cruz é o critério do julgamento do mundo: tudo aquilo que não couber na cruz, tudo aquilo que fugir da lógica da cruz, é lixo, é palha para ser queimada!

É o amor manifestado e derramado na cruz que vence Satanás, que vence o pecado, que vence a morte e nos dá a Vida plena.

Não são a força, o sucesso, as razões humanas, o prestígio que salvam!

Eis a loucura de Deus: é Cristo elevado na cruz Quem libertará os gregos que estavam do lado de fora, sem poder entrar no povo da antiga aliança.

Cristo morrerá por eles, por nós, para que todos, atraídos a Ele, formemos um novo povo, a Igreja, povo da Nova e Eterna Aliança, selada no sacrifício do Senhor, neste mesmo Sacrifício Eucarístico que neste Domingo sagrado estamos celebrando nos ritos da sagrada liturgia!

Quanta bondade, quanta misericórdia! Que dom tão grande recebemos do Senhor! Na cruz, de braços abertos, o Salvador nosso une judeus e pagãos num só povo, o novo Povo, a Igreja, Sua amada esposa una, santa, católica e apostólica!

É este, caríssimos, o mistério que a Palavra do Senhor nos convida a contemplar neste último Domingo antes do início da Grande Semana. Mas, do alto da contemplação, o Senhor nos surpreende com um convite, um desafio, quase que uma ordem inesperada: “Se alguém Me quer servir, siga-Me, onde Eu estou estará também o Meu servo”.

– Nós queremos, sim, Te servir, Senhor nosso!

Dá-nos a força de Te seguir até onde estás: estás na cruz e estás na Glória.

Jamais chegaremos a esta sem passar por aquela, porque quem não ama a Tua cruz não verá a Tua luz, a luz da Tua Glória!

Senhor, concede-nos, como fruto da santa Quaresma, um coração generoso para ir Contigo, fazendo, como Tu, a vontade do Pai na nossa vida!

Senhor, dá-nos a graça de unirmo-nos mais intensamente a Ti nestes benditos e santos dias que se aproximam, nos quais faremos memorial nos santos mistérios, da Tua Paixão, Morte e Ressurreição, pelas quais fomos salvos e libertos! “Dai-nos caminhar com alegria na mesma caridade que Te levou a entregar-Te à morte no Teu amor pelo mundo”.

A ti a Glória, ó Cristo Deus Bendito e Santo, Santo e Santificador, hoje e para sempre! Amém.