quarta-feira, 4 de março de 2015

Retiro quaresmal - quarta-feira da II semana

Hoje, o texto do nosso retiro quaresmal serão as palavras do Sermão de São Pedro Crisólogo, Bispo de  Ravena e Doutor da Igreja do século IV. Elas devem servir de avaliação das nossas observâncias quaresmais. Eis:


Há três coisas, meus irmãos, três coisas que mantêm a fé, dão firmeza à devoção e perseverança à virtude. São elas a oração, o jejum e a misericórdia. O que a oração pede, o jejum alcança e a misericórdia recebe. Oração, misericórdia, jejum: três coisas que são uma só e se vivificam reciprocamente.

O jejum é a alma da oração e a misericórdia dá vida ao jejum. Ninguém queira separar estas três coisas, pois são inseparáveis. Quem pratica somente uma delas ou não pratica todas simultaneamente, é como se nada fizesse. Por conseguinte, quem ora também jejue; e quem jejua pratique a misericórdia. Quem deseja ser atendido nas suas orações, atenda as súplicas de quem lhe pede; pois aquele que não fecha seus ouvidos às súplicas alheias, abre os ouvidos de Deus às suas próprias súplicas.

Quem jejua, pense no sentido do jejum; seja sensível à fome dos outros quem deseja que Deus seja sensível à sua; seja misericordioso quem espera alcançar misericórdia; quem pede compaixão, também se compadeça; quem quer ser ajudado, ajude os outros. Muito mal suplica quem nega aos outros aquilo que pede para si.

Homem, sê para ti mesmo a medida da misericórdia; deste modo alcançarás misericórdia como quiseres, quanto quiseres e com a rapidez que quiseres; basta que te compadeças dos outros com generosidade e presteza.

Peçamos, portanto, destas três virtudes – oração, jejum, misericórdia – uma única força mediadora junto de Deus em nosso favor; sejam para nós uma única defesa, uma única oração sob três formas distintas.

Reconquistemos pelo jejum o que perdemos por não saber apreciá-lo; imolemos nossas almas pelo jejum, pois nada melhor podemos oferecer a Deus, como ensina o Profeta: “O sacrifício agradável a Deus é um espírito penitente; Deus não despreza um coração arrependido e humilhado” (Sl 50,19).

Ó homem, oferece a Deus a tua alma, oferece a oblação do jejum, para que seja uma oferenda pura, um sacrifício santo, uma vítima viva que ao mesmo tempo permanece em ti e é oferecida a Deus. Quem não dá isto a Deus não tem desculpa, porque todos podem se oferecer a si mesmos.

Mas, para que esta oferta seja aceita por Deus, a misericórdia deve acompanhá-la; o jejum só dá frutos se for regado pela misericórdia, pois a aridez da misericórdia faz secar o jejum. O que a chuva é para a terra, é a misericórdia para o jejum. Por mais que cultive o coração, purifique o corpo, extirpe os maus costumes e semeie as virtudes, o que jejua não colherá frutos se não abrir as torrentes da misericórdia.

Tu que jejuas, não esqueças que fica em jejum o teu campo se jejua a tua misericórdia; pelo contrário, a liberalidade da tua misericórdia encherá de bens os teus celeiros. Portanto, ó homem, para que não venhas a perder por ter guardado para ti, distribui aos outros,para que venhas a recolher; dá a ti mesmo, dando aos pobres, porque o que deixares de dar aos outros, também tu não o possuirás.

terça-feira, 3 de março de 2015

Retiro quaresmal - terça-feira da II semana

No Domingo passado, a Igreja nos apresentou-nos Jesus transfigurado. Releia o texto do Evangelho da Missa...

Na sobriedade quaresmal, a luz do Tabor, todo iluminado pela luz que emana da face divinizada de Jesus de Nazaré, recorda-nos qual o destino do caminho quaresmal: a nossa divinização, a nossa transfiguração em Cristo. Como trouxemos a imagem do homem velho, deformado pelo pecado, è medida em que formos nos deixando para nos encher de Cristo-Deus, traremos a imagem do Novo Adão, o Homem Novo, todo resplandecente de Glória.

Pense bem, que esta a mais difícil é desafiadora viagem de cada um de nós: sair de nós conformados ao velho Adão para chegarmos ao Novo Adão, Jesus Cristo ressuscitado, sendo a Ele conformados!

Engana-se redondamente, portanto, quem pensa que o cristianismo é um caminho masoquista, de auto-punição, de exacerbação do sentido de culpa, de pessimismo e certo desprezo do que é humano. Nada mais distante da intuição cristã!
Já Santo Irineu recordava com palavras lapidares que “a glória de Deus é o homem vivo”.

Mas, o homem é ferido – somos assim! Profundamente contraditórios, machucados e tiranizados pela busca doentia do nosso próprio eu: queremos sempre nos colocar no centro, vemos e avaliamos tudo a partir de nós mesmos, temos a tremenda tentação de tudo relativizar a nós! Em uma palavra: temos a ilusão e a pretensão de sermos deuses! Tudo isso inferniza nossa vida, tira o brilho de nossa existência e nos faz viver na ilusão, numa grande mentira!

Todo o caminho de ascese, de disciplina e exercício espiritual do cristianismo visa nos libertar dessa situação desumanizadora, dessa terrível auto-escravidão em que o pecado nos meteu!

O caminho cristão consiste em caminhar seguindo Jesus, Ele o Homem Livre, pleno de Si, porque nunca Se buscou a Si, mas sempre viveu inteiramente para o Pai. Nosso caminho é não fazer a nossa vontade, mas a vontade de Jesus, que nunca buscou Sua própria vontade, mas a vontade do Pai!


Aqui, vale a pena perguntar: quem é o centro que define a minha vida: o Senhor Jesus Cristo ou eu mesmo? Quem é o critério da verdade das Minhas escolhas e decisões: eu ou o Senhor?
Procure responder pensando na sua vida concreta...

Por isso, no Tabor, Jesus, transfigurado de Glória, aparece falando com Moisés e Elias sobre Sua paixão que se daria em Jerusalém.
Sua glória não é a glória chocha do mundo, a glória enganosa e passageira a que tanto nos apegamos e que tanto nos ilude!
Sua glória brota precisamente do fato de ter-Se esvaziado totalmente de Si na plena adesão amorosa ao Pai. “Por isso Deus O exaltou e deu-Lhe o Nome acima de todo o nome, para que toda língua proclame que Jesus é Senhor para o glória do Pai!”

Este processo de deixar-se para encontrar-se em Jesus é cruz para nós porque somos apegados a nós e a tantas bugigangas.
A cruz aparece como cruz e nos crucifica precisamente porque somos apegados a nós, a nossos critérios e vontades.
Quanto mais livres formos para o Senhor e com o Senhor, mais saberemos vivenciar as cruzes da vida com liberdade, serenidade, paz e até mesmo alegria...


Pense no que ensina São João da Cruz: "Quem não ama a Cruz de Cristo, não verá a glória de Cristo!" Eis: somente abrançando a Cruz do Senhor, esvaziando-se de nós mesmos, poderemos dar espaço à ação do Espírito de Cristo que nos glorifica.

Sendo assim, usemos com afinco as armas do combate quaresmal: oração, penitência, esmola, escuta da Palavra de Deus, leitura espiritual, combate aos vícios e confissão sacramental. Tudo para ser mais livres em Cristo, tudo para parecer mais com Cristo e ter Seus mesmos sentimentos!
Assim, quando chegar a Páscoa deste 2015 e resplandecer a Páscoa da Glória, na Eterna visão, seremos, também nós, inundados da Glória de Deus que refulgiu na Face do Cristo naquele Tabor!

Reze o Salmo 23/24, suplicando ao Senhor a graça de abrir-Lhe as portas do seu coração.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Retiro quaresmal - segunda-feira da II semana

Assim fala o Senhor: 21“Se o ímpio se arrepender de todos os pecados cometidos, e guardar todas as Minhas leis, e praticar o direito e a justiça, viverá com certeza e não morrerá. 22Nenhum dos pecados que cometeu será lembrado contra ele. Viverá por causa da justiça que praticou.

24Mas, se o justo desviar de sua justiça e praticar o mal, imitando todas as práticas detestáveis feitas pelo ímpio, poderá fazer isso e viver? Da justiça que ele praticou, nada mais será lembrado. Por causa da infidelidade e do pecado que cometeu, por causa disso morrerá (Ez 18,21-22.24).

Palavras tão antigas, estas o Profeta Ezequiel!

Podem parecer óbvias, mas trazem alguns importantes aspectos para nosso caminho quaresmal.

Primeiro, aparece claramente que nossa vida é sempre aberta diante do Senhor: podemos sempre confirmar ou não a nossa opção fundamental! Dito de outro mod: ser cristão é uma decisão que se toma uma vez por todas e, ao mesmo tempo, deve ser renovada a cada dia, em cada nova situação!

Eu posso pendurar num quadro de parede meu certificado de Batismo, mas não posso garantir que serei um fiel discípulo de Cristo até a morte! A cada dia, em cada escolha, do modo como me posiciono concretamente ante situações, pessoas, gestos, confirmo e fortaleço ou obscureço e nego, até renegar minha adesão ao Senhor!

Olhando seu modo de viver, observando suas atitudes e escolhas, ações e reações, procure responder sinceramente: você tem avançado ou regredido na sua adesão e seguimento ao Cristo Senhor nosso?

Segundo. A palavra que o Senhor nascido por meio de Ezequiel deixa claro que, diante de Deus, ninguém fica preso ao seu passado, muito menos a um erro ou pecado que tenha cometido. Seja qual for nossa história, poderemos sempre dizer: "Senhor da minha vida, o Teu amor faz-me recomeçar! Tu não me prendes ao meu passado, mas me apelas no presente e convida-me a construir um futuro Contigo!"

Pense bem: você continua disposto a recomeçar mais uma vez seu caminho com o Senhor? Ele não se cansa nunca de você! "Eis o que recordarei ao meu coração e por que eu espero: as misericórdias do Senhor não terminaram, suas compaixões não se esgotaram; elas se renovam todas as manhãs: grande é a Sua fidelidade!" (Lm 3)

Terceiro. Nossa relação com o Senhor não é um acúmulo de méritos e benfeitorias! É uma relação pessoal, dinâmica e viva! Sou sempre desafiado a amá-Lo, a ter para com Ele um coração aberto, disponível, generoso, encantado, piedoso, obediente! Se a relação amorosa morrer, todas as obras ficam mortas, são um esqueleto sem vida: quem ama não calcula; o amor supera o cálculo!

Pense: Como é sua relação com o Senhor: generosa, amorosa, intima, fecunda ou, ao invés, formal, contábil, fria, interesseira?

Reze o Salmo 102/103

Retiro Quaresmal - sexta-feira da I semana

Sobretudo as sexta-feiras quaresmais são dias de meditação sobre a Paixão do Salvador. 

Hoje lhe proponho uma meditação sobre o sangue de Cristo nosso Senhor. Contemplemos o Salvador no mistério da Sua cruz: ali, na cruz, todo o Seu sangue Ele derramou por nós e pelo mundo inteiro!
Tantas vezes já escutamos falar do sangue de Jesus e do seu poder salvador!

A Primeira Epístola de São João afirma claramente que “o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado” (1,7) e a Primeira Epístola de São Pedro ensina claramente que “fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais pelo sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeitos” (1,19).

Em suma, é doutrina do Novo Testamento todo, é fé da Igreja que pelo sangue de Cristo fomos salvos e libertos. Saudando o Cristo morto e ressuscitado, o Apocalipse assim se exprime:
“Foste imolado e, por Teu sangue, resgataste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação” (5,9).

Mas, por que esta verdadeira fixação no sangue? Por que a sua importância? Não parece algo mágico, que um líquido biológico possa salvar, dando vida à humanidade? Não estamos diante de algo repulsivo à razão humana, algo meio ridículo e primitivo, próprio de uma religião tribal, inaceitável e incompreensível para nós hoje? Não estaríamos ainda às voltas com a imagem de um deus sádico, mau, vingativo, que provoca o sofrimento e somente se compraz e se sacia com sangue, com vingança? São perguntas sérias, que podem colocar em xeque a seriedade do cristianismo...
Para compreendermos tudo isto, é necessário primeiro entender o que significa o sangue na Sagrada Escritura, de modo particular no Antigo Testamento.

O Pentateuco explica: A vida da carne está no sangue. E este sangue Eu vo-lo tenho dado para fazer o rito de expiação sobre o altar, pelas vossas vidas; pois é o sangue que faz expiação pela vida” (Lv 17,11).

Compreendamos: Deus é vida e a vida do homem é estar em comunhão com Deus, aberto a Ele, amando-O e buscando na vida concreta a Sua santa vontade.
Quando o homem peca, rebela-se contra Deus, fecha-se para Ele. Na raiz de todo pecado está a ilusão de que a vida é nossa e podemos fazer dela aquilo que queremos.
Ora, quando o homem peca, afastando-se de Deus, ele perde o sentido da vida, perde a vida, cai numa situação de morte. Claro que, aqui, não se trata de uma morte física, mas da morte da alma, morte porque a vida perde o sentido e, passando pela morte física, pode resultar na morte eterna, que é a perda de Deus para sempre. Por isso mesmo, nos ritos do antigo Israel, o pecado somente poderia ser remido com um sacrifício no qual o sangue (a vida) da vítima fosse derramado: “Segundo a Lei, quase todas as coisas se purificam com sangue; e sem efusão de sangue não há remissão” (Hb 9,22).
E o autor sagrado afirma também: “Nem mesmo a primeira aliança foi inaugurada sem efusão de sangue” (Hb 9,18). Quando o pecador oferecia um animal como vítima pelo pecado, estava reconhecendo (1) o seu pecado, (2) o senhorio absoluto de Deus sobre toda a sua vida, (3) e que seu pecado leva a uma situação de morte, representada na morte da vítima, que tinha seu sangue derramado. É como se a vítima substituísse o pecador que, pecando, afastou-se do Deus da vida e aproximou-se da morte. Podemos afirmar, então, que o sangue derramado significa a vida doada, a vida perdida, a vida tirada... Não esqueçamos: “A vida da carne (a vida de todo ser vivente) está no sangue” (Lv 17,11): perder este é perder aquela!

Mas, há um problema sério com esses sacrifícios: os animais oferecidos como vítimas não tinham nenhuma consciência do que estava acontecendo, não podiam oferecer sua própria vida como um ato de amor e louvor a Deus. Eles apenas representavam o pecador e eram oferecidos no lugar dele. Por isso, a Escritura constata que “é impossível que o sangue de touros e bodes elimine os pecados” (Hb 10,4).

Agora, vamos a Jesus.
Toda a Sua vida, desde momento da Encarnação, foi um ato de amor e obediência ao Pai em nosso favor:
“Tu não quiseste sacrifício e oferenda. Tu, porém, formaste-Me um corpo. Holocausto e sacrifício pelo pecado não foram do Teu agrado. Por isso Eu digo: Eis-Me aqui! Eu vim, ó Deus, para fazer a Tua vontade!” (Hb 10,5-7).


O Filho eterno fez-Se homem para gastar toda a Sua vida fazendo a vontade do Pai. E esta vontade é salvar a humanidade, dando-lhe a Vida eterna (cf. Jo 6,37-39). Assim, Jesus foi derramando Sua vida, num amor infinito ao Pai por nós: na pobreza de Belém, na vida miúda de Nazaré, nas andanças pelas estradas da Galiléia, nas curas, ensinamentos, nas contradições, nas noites inteiras em oração ao Pai... Jesus foi Se dando, Se gastando, como uma vida vivida para Deus em benefício da humanidade. Esta doação de toda uma existência, chegou ao máximo na cruz.
O sangue que Ele iria derramar até a morte nada mais é que o símbolo de uma vida – a vida do Filho de Deus feito homem – entregue em favor da humanidade!
O sangue derramado significa, então, a vida dada amorosamente em nosso favor, como vítima de reparação pelo nosso pecado. Porque o homem pecou e caiu numa triste situação de perdição, de desencontro, desaprumo e morte, o Filho de Deus deu sua vida até a morte para da morte nos arrancar: Isto é o Meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por muitos para a remissão dos pecados” (Mt 26,28). Cristo Jesus, dando sua vida em total obediência amorosa ao Pai por nós, apaga o nosso pecado, restitui-nos a vida e faz de nós um povo nascido de uma nova aliança com Deus no Seu sangue.

Dizer que o sangue de Cristo nos salva é dizer com Sua vida dada em obediência amorosa ao Pai nos alcançou a salvação: “Eis que Eu vim, ó Deus, para fazer a Tua vontade. – é graças a esta vontade que nós somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo” (Hb 10,8.10).

Olhar o sangue de Jesus, ser banhado no sangue de Jesus, beber o sangue de Jesus, significa unir-se a Jesus, fazendo da nossa vida uma participação na Sua entrega de toda a existência ao Pai. Por isso mesmo são Pedro que nós participamos da “bênção da aspersão do Seu sangue” (1Pd 1,2).

Então, olhemos o Cristo que Se gastou, que Se derramou amorosamente a vida toda até a cruz; sejamos-Lhe gratos porque Seu sangue, Sua vida derramado por amor nos salvou.
Como cristãos, somos unidos a ele pelo Batismo e a Eucaristia, para fazer de nossa vida uma entrega com Ele, por Ele e como Ele. Assim viveremos uma vida nova já agora, vida liberta da morte e que será ressurreição para a Vida eterna.


“Àquele que nos ama, e que nos lavou de nossos pecados com o Seu sangue, e fez de nós uma Realeza e Sacerdotes para Deus, Seu Pai, a Ele pertencem a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém. (Ap 1,5s).

Reze o Salmo 39/40 - É o Salmo que o Senhor rezou ao Se encarnar e resume toda a Sua existência humana. Una seus sentimentos aos do Cristo Jesus.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Retiro quaresmal - Sábado da I semana

A Epístola aos Hebreus, logo no capítulo segundo, falando de Jesus, o santo Filho eterno do Pai, que Se fez homem para salvar a humanidade, nos surpreende afirmando que, fazendo-Se homem, Jesus “libertou os que, por medo da morte, passavam a vida toda sujeitos à escravidão” (Hb 2,15).

Que significam tais palavras?
Que medo da morte é este?
E, por que ele escraviza assim tão fortemente, a ponto de necessitar da encarnação do Filho eterno? E como o Filho nos liberta dessa escravidão?

Primeiro, o medo da morte... De que morte fala aqui o Escritor sagrado?

Morte é tudo aquilo que nos nega, que nos contrista.
Morte é cada tristeza, cada renúncia, cada derrota, cada decepção, cada perda, cada separação, cada medo, cada solidão, cada lágrima derramada, cada fracasso.
Morte é, enfim, a morte do termo da nossa vida.

E temos medo da morte. Pelamo-nos de medo!
A ânsia que temos de viver é tamanha, que pensamos, iludidos, que a vida está em nossas mãos, que é nossa de modo absoluto e, assim, devemos fazer tudo do nosso modo para escapar das experiências negativas e dolorosas, custe o que custar... E, nesta ilusão, quebramos propósitos, rompemos compromissos, transgredimos preceitos do Senhor, esquecemos o próprio Deus, e pensamos, e dizemos, e gritamos: “Tenho que ser feliz, tenho o direito de ser feliz, o único que importa é ser feliz do meu jeito!”

O homem tem tanto medo das mortes, que rouba, corrompe, mente, mata, manipula, usa os demais, engana, engana-se... Tudo para levar a melhor, tudo pela ilusão de ser feliz do seu modo e na sua medida...
Assim, pelo medo da morte, ilude-se, escravo de si e do seu pecado, escravo da ilusão que aquele que é Sedutor deste o princípio lhe oferece, como no Jardim do Paraíso... Por medo de morrer as mortes da vida, terminamos por cair na morte da escravidão de nós mesmos, do nosso pecado. Bem que Jesus nos previne: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la” (Mt 16,25).

Pense, você, nos seus medos...
Experimentados, vivenciados, longe de Deus, fora de Sua santa presença, esses medos apavoram, condicionam, bloqueiam-nos...
Esses medos da morte, por vezes, ditam a regra das nossas ações e omissões: medo de ser incompreendido, medo de perder amizades ou privilégios, medos... tantos medos temos!

Quais os medos determinantes na sua vida?
Como eles condicionam você?

Uma segunda questão: Como Jesus nos salva de tamanha e tão total perdição, que invade toda a nossa existência consciente e inconsciente?

Ele Se fez um de nós, viveu em tudo a nossa condição; mas, não teve medo da morte!
Abandonou-Se totalmente nas mãos do Pai, fez do Pai Seu tesouro, Seu alicerce, Sua luz, o sentido último e absoluto da Sua vida, fazendo-Se a Ele obediente até a morte e morte de cruz!
Nos embates e lutas da vida, Ele aprendeu a obedecer no sofrimento (cf. Hb 5,8s) tornando-Se livre e libertador! Desta maneira, Jesus foi livre – totalmente livre, o homem mais livre que jamais existiu! Tão livre, a ponto de exclamar: “Ninguém tira a Minha vida. Eu a dou livremente. Tenho o poder de entregá-la e o poder de retomá-la. Este é o preceito que recebi do Meu Pai” (Jo 10,18).

Assim livre, assim senhor de Si, assim totalmente obediente, Ele foi até a cruz.
Ressuscitado, dá-nos Seu Espírito que, agindo em nós, configura o nosso coração ao coração do Salvador, colocando a nossa vida na Sua obediência e na Sua liberdade.

Pense bem, meu Irmão de caminho quaresmal!
Enquanto houver em seu coração apego à própria vida, com a ilusão de que você sozinho, você do seu jeito, você na sua própria medida e na sua própria verdade mentirosa, sem Deus e até contra Deus, pode ser feliz, pode construir sua própria felicidade, construindo seu próprio projetozinho pessoal... enquanto sua vida for assim, você nada mais será que um pobre escravo!

Com todo o prestígio, você não passa de um pobre escravo;
com todo o seu dinheiro e poder, você não passa de um escravo;
com todos os talentos, prazeres e potencialidades, escravo;
com todo o seu sucesso, você será só escravo, todo escravo, enganado escravo! 
Escravo da própria escravidão; tão escravo que pensa que a escravidão é liberdade! 
Por medo de não ser feliz, por medo de perder a vida, você se torna escravo e vive uma grande ilusão que, ao fim de tudo, será colocada por terra, desmascarada! Escravo!

Como sair disso?
Como quebrar tão terrível, profunda e generalizada maldição que nos ilude?

Vivendo a vida numa profunda união com Aquele Jesus que foi livre, totalmente abandonado nas mãos do Pai, totalmente obediente ao Deus Santo de Israel, totalmente centrado Nele.
Aí, quando “nem a morte nem a vida nem criatura alguma” (Rm 8,38s) nos poder separar do amor de Cristo, quando tivermos os sentimentos Dele, a liberdade Dele, então já não teremos medo das mortes da vida e, livres, saberemos viver a vida com serenidade, usando os bens e oportunidades deste mundo sem a eles nos escravizar, mas deles fazendo caminho para Deus e para os outros.

Olhe! Pense nestas coisas, porque elas dizem respeito a você, bem de pertinho; dizem respeito a mim, a cada um de nós! O próprio Jesus nos preveniu: “Se o Filho vos libertar, sereis realmente livres” (Jo 8,36).
É Ele – somente Ele – Quem, de fato, nos livra da morte, pois é o único que é capaz de nos fazer atravessar os vales das mortes e entrar na vida verdadeira.

Vá: seja livre; largue tantas escravidões, geradas da tola ilusão de salvar você mesmo a sua vida, às vezes passando por cima de Deus, dos outros e até da sua consciência. Seja livre, meu Leitor! Sejamos nós livres! Para isto fomos criados e salvos por Cristo: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou!” (Gl 5,1).

Reze o Salmo 17/18

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Retiro quaresmal - quinta-feira da I semana

Retiro quaresmal - Quinta-feira da I semana

Escute esta exortação:

"Expia teus pecados e injustiça com esmolas e obras de misericórdia em favor dos pobres; assim terás longa prosperidade" (Dn 4,24b).

Assim, entramos noutro tema próprio deste sagrado tempo: a esmola.
Não restrinjamos a esmola ao dar uma ajuda material a algum necessitado. É esmola qualquer obra de misericórdia. A tradição da Igreja as sistematiza em quatorze.

Sete delas são chamadas corporais:
Dar de comer a quem tem fome;
Dar de beber a quem tem sede;
Vestir os nus;
Dar abrigo aos peregrinos;
Assistir aos enfermos;
Visitar os presos;
Enterrar os mortos.

As sete outras são chamadas espirituais:
instruir;
aconselhar,
consolar,
confortar,
perdoar,
suportar com paciência,
rezar pelos vivos e pelos mortos.

Alarguemos ainda mais: esmola é todo bem, toda abertura, todo gesto de amor e serviço e cuidado em relação aos próximos; esmola é qualquer aproximação dos distantes para ajudá-los por amor de Cristo.

A Palavra de Deus nos exorta, portanto, a que saiamos de nós e vamos em direção aos outros para ajudá-los. E isto por amor de Cristo, que veio em nossa ajuda, fazendo-Se homem por nós, por nós tomando a condição humana, fazendo-Se servo da nossa salvação: "Conheceis o exemplo de Jesus Cristo que sendo rico, Se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza!" (2Cor 8,9)
Portanto, neste dia quaresmal, diante do Senhor, perguntemo-nos pela realidade e pela qualidade da nossa relação com os irmãos: em casa, no trabalho ou na escola, na sociedade em geral, no círculo de amizade e conhecimento...

Sair em direção ao outro, para um cristão, não deveria ser simplesmente questão de simpatia ou conveniência, mas realmente um sair de si, um esquecer-se dos próprios interesses para fazer o bem a outros...

E qual a motivação? O amor de Cristo: "A Mim o fizestes!"

O texto de Daniel, acima citado, fala em expiar os pecados com a esmola e em ter prosperidade... Compreendamos bem!

Expiar os pecados. A esmola por amor de Cristo abre o meu coração para o irmão, que é imagem viva de Deus. Servindo o irmão desinteressadamente é ao  Senhor que estarei servindo. Saindo de mim em direção aos outros por amor ao Senhor, vou curando meu fechamento, pondo medicina no meu egoísmo, vou aprendendo a não me colocar no centro de tudo. Assim, abrindo-me, vou deixando Deus entrar na minha vida e vou pondo remédio à minha pecaminosa tendência ao fechamento em mim mesmo, tudo colocando a meu serviço.
A esmola me corrige, a esmola torna o meu amor concreto, efetivo, a esmola mostra a veracidade da minha fé no Senhor. Mais: a esmola, pelo trabalho de sair de mim mesmo, expia, corrige, o meu pecaminoso egoísmo! Por isso ela expia os pecados, põe neles remédio!

Ter longa prosperidade. Aqui não temos nada a ver com a maldita, pagã, satânica e mentirosa teologia da prosperidade, que é serviço ao deus Mamon, Príncipe deste mundo.
A verdadeira prosperidade é uma vida na sabedoria, isto é, uma vida vivida segundo o Senhor Deus e, portanto, vida no Shalom, na paz verdadeira, que somente o Senhor pode dar - e não a dá como o mundo dá!
Shalom: paz, prosperidade de uma existência sadia, realizada, é a harmonia, a comunhão com o Senhor Deus que gera harmonia interior consigo mesmo, comunhão com os outros e com toda a criação. Eis uma vida próspera na perspectiva de Deus: uma vida cheia de sentido, uma vida vivida na perspectiva da Eternidade.
A esmola, abrindo-nos para os outros por amor de Deus, traz-nos maturidade, capacidade de comunhão com o Senhor é com todas as Suas criaturas.

Pense nestas realidades.
Reze o Salmo 39/40

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Retiro quaresmal - Quarta-feira da I semana


Naquele tempo, disse Jesus aos Seus discípulos: 7“Quando orardes, não useis muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras.
8Não sejais como eles, pois vosso Pai sabe do que precisais, muito antes que vós o peçais. 9Vós deveis rezar assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Teu Nome; 10venha o Teu Reino; seja feita a Tua vontade, assim na terra como nos céus. 11O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. 12Perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, 13e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.
14De fato, se vós perdoardes aos homens as faltas que eles cometeram, vosso Pai que está nos céus também vos perdoará. 15Mas, se vós não perdoardes aos homens, vosso Pai também não perdoará as faltas que vós cometestes” (Mt 6,7-15).

A oração é uma das observâncias do santo tempo da Quaresma.
Quantas vezes, nos santos evangelhos, o Senhor não manda rezar!
Pois eu lhe digo, caro Irmão:

Quem reza se salva,
Quem não reza é ateu!

Quem reza se salva porque a oração nos abre para o Senhor Deus. Quem reza experimenta de verdade que Deus é o Tudo da sua vida. A oração vai nos fazendo perceber que o Senhor não é algo, mas Alguém, pessoal, amoroso, concreto, atuante!
Assim, a oração nos salva do fechamento para o Senhor Deus, tira-nos da ilusão de pensar que nós nos bastamos e que a vida é nossa e dela fazemos o que bem quisermos...
Quem reza se salva porque se salva de si próprio!

Quem não reza é ateu!
Mesmo que diga que crê, vive, na prática, como se Deus não existisse, pois vive se colocando como centro, fazendo sua própria vontade.
Quem não reza vai, pouco a pouco, criando uma ilusão, a ilusão de ser seu próprio Deus!

Por isso mesmo, ao nos ensinar a rezar, o Senhor nos faz primeiro que tudo entrar na Sua relação de amor e intimidade, de abertura e confiança em relação ao Seu Deus: dá-nos a graça de chamar a Deus com a mesma intimidade, com a qual Ele O chama: Pai, Papai 
Em Jesus, esta expressão significa total entrega nas mãos benditas do Deus Santo! 
Portanto, para um cristão, rezar é primeiramente ser totalmente aberto para o Senhor, em total atitude filial, em Jesus é como Jesus.

Por outro lado, esse Pai tão próximo não é nosso parceiro, não é nosso amiguinho: Ele é o Santo, o totalmente Outro: estás nos céus!
Por isso a súplica: que o Teu Nome seja santificado na minha vida, que eu, com minha pobre vida Te santifique, honrando-Te, dando Glória ao Teu Nome!
É como posso fazer isto? Fazendo a Tua santa vontade sempre é em tudo!

Quando santificamos o santo Nome do Senhor, quando vivemos na Sua santa vontade, então o Seu Reino torna-se presente em nós e, através de nós, no mundo!

Assim, caro Irmão, neste dia de Quaresma, sugiro que você se pergunte por sua vida de oração:

- tem realmente dedicado tempo para o Senhor?
- sua oração tem sido abertura para o Senhor Deus?
- você tem deixado que Deus seja Deus na sua vida?
- quem é o Senhor, quem é o critério da sua existência: Deus ou você mesmo?
- sua oração tem sido real procura de escutar o Senhor é fazer Sua santa vontade?
- sua oração influencia a sua vida?
- em que você precisa melhorar na vida de oração?

Pense nisto!
Reze o Salmo 4