quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Retiro Quaresmal - Sexta-feira após as Cinzas



Moisés falou ao povo dizendo: “Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça. Se obedecerdes aos preceitos do Senhor teu Deus, que eu hoje te ordeno, amando ao Senhor teu Deus, seguindo Seus caminhos e guardando Seus mandamentos, Suas leis e Seus decretos, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que vais entrar, para possuí-la.
Se, porém, o teu coração se desviar e não quiseres escutar, e se, deixando-te levar pelo erro, adorares deuses estranhos e os servires, eu vos anuncio hoje que certamente perecereis. Não vivereis muito tempo na terra onde ides entrar, depois de atravessar o Jordão, para ocupá-la.
Tomo hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas! Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça. Se obedecerdes aos preceitos do Senhor teu Deus, que eu hoje te ordeno, amando ao Senhor teu Deus, seguindo Seus caminhos e guardando Seus mandamentos, Suas leis e Seus decretos, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que vais entrar, para possuí-la.
Se, porém, o teu coração se desviar e não quiseres escutar, e se, deixando-te levar pelo erro, adorares deuses estranhos e os servires, eu vos anuncio hoje que certamente perecereis" (Dt 30,15-18).

Palavra do Senhor Deus, tão antiga é tão nova!
Como a Israel nos dias do deserto, o Eterno nos coloca ante dois caminhos, duas opções: a morte e a Vida!
Irmão meu de caminho, esteja muito atento, porque não é brincadeira, não é nem mesmo metáfora a advertência que nos é dirigida!
Nesta existência que nos foi dada, temos dois caminhos - não mais: um caminho de morte é um caminho de Vida!
Compreendamos bem. Primeiro o caminho de morte: fazer de nós mesmos o centro e a referência da própria existência, pensando, de modo ilusório é bobo: "A vida é minha e eu dela faço o que quiser! Viverei do meu modo, pois tenho o direito de ser feliz, feliz da felicidade que eu defini, do meu jeito, sob a minha medida é com os meus critérios!"
Note, Irmão: aqui Deus está na periferia da minha existência, servindo aos meus interesses. Efetivamente, o centro da minha vida, neste caso, sou eu mesmo! Mas, viver assim é viver uma mentira, uma ilusão! Ainda que biológica e psicologicamente eu viva, estou morto, estou na inautenticidade de uma existência feita mentira, tornada engano.
E quando vier uma crise, quando algo grave ocorrer, quando uma decepção bater à porta, então tudo desaba, pois a existência foi construída na mentira - na Escritura, mentira significa ilusão, idolatria!
Compreende que alguém que viva assim vive vida de morte? Não é brincadeira, é triste realidade!
Agora o caminho da Vida - com maiúscula!
Trata-se de ter a coragem, de correr o risco, de viver a doce aventura de ser aberto para o Senhor, fazendo Dele realmente o centro, o eixo, o critério, o fundamento, o sentido da nossa existência!
Talvez você se pergunte: mas, onde está a vida nesta situação? Em dois aspectos: (1) Nossa humana estrutura é toda ela voltada para o Eterno! Conscientes ou não, querendo ou não, somos mendigos do Infinito, sedentos do Absoluto! Abertos para Ele, encontramos o rumo, o critério, o sentido, a paz, em outras palavras, uma Vida que é muito mais que uma sobrevivência biológica ou um equilíbrio psicológico. (2) O Senhor é o Vivente, da Vida plena, eterna, infinita! Somente Ele nos pode dar essa existência que vence e ultrapassa a própria morte, até mesmo a Morte eterna, a Morte da alma, o Inferno do vazio sem fim! Abrindo-nos para o Senhor, acolhendo a Sua graça, que nos é oferecida nos Santos Sacramentos instituídos pelo Senhor como canais de Vida, nós, plenos do Seu Espírito Santo bom e vivificante, já aqui recebemos a Vida que viveremos eternamente na Glória, na plenitude do Reino dos Céus!
Mas, tudo isto depende de uma escolha feita agora, no hoje miúdo da sua, da minha vida! Vamos: tenha a coragem de olhar seu caminho neste mundo, seu modo de viver... Responda a você mesmo, diante de Deus: quem é meu critério: Deus, o Vivente e Vivificante ou eu, pó que o vento leva?
Assuma hoje, caro Irmão, o firme propósito quaresmal de um esforço sincero para cortar tudo aquilo que não permite que Deus seja Deus na sua vida!

Reze o Salmo 1

Retiro Quaresmal - Quinta-feira após as Cinzas

"Arrependei-vos, convertei-vos de todas as vossas transgressões, a fim de não terdes ocasião de cair em pecado.
Afastai-vos de todos os pecados que praticais.
Criai para vós um coração novo e um espírito novo.
Por que haveis de morrer, ó Casa de Israel? Pois não sinto prazer na morte de ninguém - oráculo do Senhor Deus.
Convertei-vos e vivereis!" (Ez 18,30b-32)

É essencial, logo no início da santa Quaresma, que aprofundemos bem e plantemos no íntimo do coração a necessidade que todos temos da conversão.

Olhe-se você diante do Senhor Deus; meça-se tendo como referência aquele Amor que nos foi manifestado na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo...
Quem de nós não é infiel?
Quem de nós pode dizer que corresponde realmente ao Senhor?

Mais ainda: olhemos bem o nosso coração, com seus pensamentos tão distantes do sentir do Eterno, seus desejos tão desencontrados e incoerentes...
E nossas ações? E muitos aspectos do nosso modo de viver?
Somos pecadores!

É verdade que, desde o Batismo, somos criaturas novas, regenerados no Espírito Santo do Cristo. Mas, também é certo que, mesmo após o santo Batismo, permaneceu em nós a concupiscência: aquele desaprumo, aquela ferida, aquele desequilíbrio que, ainda não sendo em si mesmo pecado, é fruto do pecado e nos pode conduzir ao pecado.

Irmão, o único modo de superar o pecado é olhar para o Senhor, deixando-nos medir pela Sua Palavra e Seu Amor.
Assim procedendo, veremos que somos pecadores; e é absolutamente necessário que, à luz de Cristo - não à nossa luz e critério - tenhamos a coragem humilde de admitir, diante do Senhor, o Santo:
"Sou pecador, estou em situações de pecado e preciso romper com isto, convertendo-se a Ti, meu Deus!
"Arrependei-vos, convertei-vos!" - eis o convite do Senhor Deus pela boca de Ezequiel!
"Arrependei-vos! Crede no Evangelho" - eis a primeira palavra de Jesus Nosso Senhor! 

É impressionante: sem a sincera disposição de arrependimento, de conversão, também não há Evangelho! E por quê? Porque o Evangelho-Boa Nova consiste exatamente na Vida nova, na redenção, na divinização do homem, fruto de uma disposição em sair das situações de pecado, abrindo-nos para o Reinado do Senhor Deus na nossa vida! Deus não reinará plenamente em nós enquanto em algo preferirmos a vontade nossa em vez da vontade bendita do Senhor!

Hoje temos tantos insistindo no critério da misericórdia... Mas, atenção que a misericórdia jamais suprime a verdade, jamais cancela a necessidade de conversão, de ruptura com o que é contrário ao preceito do Senhor!

Então, como se manifesta a misericórdia do Senhor ante situações dolorosas e talvez insuperáveis praticamente?
Manifesta-se como paciência, compreensão, acolhimento, mas nunca, jamais, em chamar certo ao errado, bem ao mal, virtude ao vício, ideal ao que é fruto da humana debilidade!

A misericórdia manifestar-se-á realmente naqueles que, conscientes da sua situação diante do Senhor, não se julgam com direitos adquiridos, não levantam seu dedo contra o Senhor ou Sua Igreja, mas, humildemente, como o publicano, simplesmente pedem perdão e fazem o melhor que pôde para agradar a Deus.

Convido-o, Irmão, a pensar nas suas transgressões em relação ao Senhor!
Coragem! Assuma-as sem mascaramentos, sem desculpas esfarrapadas!
Recorde-as... Deixe que seu coração fique pesaroso por elas... Exponha-as ao Senhor: Ele é o Sol de Justiça, que tem a cura em Seus raios! (cf. Ml 3,20)
Suplique perdão ao Senhor e peça-Lhe a graça e a força de sair desse pecado!

Agora, comece também a planejar como fazer para fugir das ocasiões que o possam fazer recair! "Arrependei-vos, convertei-vos de todas as vossas transgressões, a fim de não terdes ocasião de cair em pecado. Afastai-vos de todos os pecados que praticais".

- Senhor, sou pecador!
Amo-Te sinceramente, mas vejo-me incoerente, contraditório em relação a Ti e Teus mandamentos!
Reconheço-me Pecador! Peço-Te perdão e força para superar minha situação de pecado.
Ajuda-me a a chamar o pecado pelo nome! Livra-me de querer justificar-me diante de Ti com argumentos e raciocínios mundanos, que nada têm a ver com o Teu Evangelho ou a Tua misericórdia!
Que eu saiba confiar em Ti e clamar Tua misericórdia, procurando sinceramente lutar contra o meu pecado!
Piedade de mim, ó Salvador meu e do mundo inteiro!
Pelos Santos Mártires do Egito, mortos por infiéis, somente pelo Teu santo Nome, dá-me força, dá-me coragem, dá-me coerência para evitar o pecado ou, pelo menos, chamá-lo pelo seu verdadeiro nome! Sei que se não puder receber Teu perdão no Sacramento é Teu bendito Corpo na Comunhão, ao menos receberei Tua misericórdia pela minha humildade na verdade e na confiança obediente a Ti!
Cristo Deus, piedade de mim, pecador!

Reze o Salmo 31/32

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Retiro Quaresmal - Quarta-feira de Cinzas

Do Livro do Profeta Isaías (58,1-12)

Assim fala o Senhor Deus: 1Grita forte, sem cessar, levanta a voz como trombeta e denuncia os crimes do Meu povo e os pecados da casa de Jacó.
2Buscam-Me cada dia e desejam conhecer Meus propósitos, como gente que pratica a justiça e não abandonou a Lei de Deus. Exigem de Mim julgamentos justos e querem estar na proximidade de Deus:
3"Por que não Te regozijaste, quando jejuávamos, e o ignoraste, quando nos humilhávamos?"
- É porque no dia do vosso jejum tratais de negócios
e oprimis os vossos empregados.
4É porque ao mesmo tempo que jejuais, fazeis litígios e brigas e agressões impiedosas.
Não façais jejum com esse espírito, se quereis que vosso pedido seja ouvido no céu.
5Acaso é esse jejum que aprecio, o dia em que uma pessoa se mortifica? Trata-se talvez de curvar a cabeça como junco, e de deitar-se em saco e sobre cinza? Acaso chamas a isso jejum, dia grato ao Senhor?
6Acaso o jejum que prefiro não é outro: - quebrar as cadeias injustas, desligar as amarras do jugo, tornar livres os que estão detidos, enfim, romper todo o tipo de sujeição? 7Não é repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres e peregrinos? Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne.
8Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a Glória do Senhor te seguirá. 9Então invocarás o Senhor e Ele te atenderá,
pedirás socorro, e Ele dirá: "Eis-Me aqui". Se destruíres teus instrumentos de opressão, e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; 10se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia. 11O Senhor te conduzirá sempre e saciará tua sede na aridez da vida, e renovará o vigor do teu corpo; serás como um jardim bem regado, como uma fonte de águas que jamais secarão.
12Teu povo reconstruirá as ruínas antigas;
tu levantarás os fundamentos das gerações passadas:
serás chamado reconstrutor de ruínas,
restaurador de caminhos, nas terras a povoar.

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Leia e releia esta Palavra do Senhor. É para você! Deixe-a ecoar no seu coração...
Veja como é uma palavra dura, comprometedora...
Deixe-se toca e ferir por ela!

Logo no início deste santo Tempo, aparecem, juntas, a sede do nosso coração, sede do Senhor: “Nós Te procuramos!”
e, ao mesmo tempo, as exigências de Deus: “Convertei-vos! Procurai-Me sinceramente!”
Não há verdadeira busca de Deus sem o sincero desejo de conversão e sem o combate para realmente converter-se!

Olhe o seu coração, caro Irmão, a sua vida: quão necessitados somos do Senhor! Como a existência é vazia, incompleta, inconclusiva sem Deus!
Se você está lendo estas linhas é porque procura o Senhor, porque já pressentiu que o coração o homem somente no Senhor encontra descanso.

Mas, esta procura pela Face do Altíssimo deve ser sincera, levando-nos a sair de nós mesmos para colocar nossa existência nas mãos do Eterno! Uma procura pelo Senhor sem desejo de conversão, sem combate interior para ajustar nossa vida à vontade de Deus, é falsa e inútil!

Observe que logo no início desta Quaresma, o Senhor coloca um critério muito concreto e surpreendente para provar nossa sinceridade em procurá-Lo: o respeito, o serviço, o sincero compromisso em relação aos irmãos e aos homens em geral!

E isto tem um sentido: o homem é imagem de Deus! Honrar a imagem é honrar o protótipo; desonrar a imagem é desonrar o “original”: “Quem não ama o irmão a quem vê, não pode amar a Deus a Quem não vê!” (1Jo 4,8).

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- Senhor Deus, dá-me a graça de viver na santidade e na sinceridade este santo tempo quaresmal!
Abençoa e sustenta o meu propósito de abrir sinceramente o coração para Ti e, por Tua causa, para os meus irmãos, sobretudo aqueles de quem ando afastado ou que para mim se tornaram indiferentes...

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Reze. Em que você pode mudar em ralação aos irmãos? A quem precisa de abrir mais? E quais aspectos? De que modo?

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Reze o Salmo 49/50... Reflita... Abra seu coração...
Agora, reze o Salmo 50/51
Reze a Oração do Senhor e suplique a intercessão da Virgem Maria com uma “Ave-Maria”.

O sagrado jejum

O jejum: uma refeição completa e outra duas, leves, que juntas não cheguem a uma! Nada de comida entre as refeições!

Jejuar para colocar nosso corpo debaixo do senhorio de Cristo.

Jejuar para disciplinar nossa vontade.

Jejuar para exprimir nossa entrega de vida ao Senhor, já que o comer é o instinto básico do homem, que procura sempre autoconservar-se.

Jejuar para que, sentindo a fraqueza, estando "in-firmus", não firme, reconheça que sua vida vem sempre de Deus e a Ele pertence e somente Nele tem sentido.

Jejuar para recordar os que passam fome e tantas outras privações.

Jejuar e dar aos pobres o fruto do jejum e da abstinência.

Algumas anotações para a Santa Quaresma

A Quaresma é um período de quarenta dias de penitência.

Inicia-se na Quarta-feira de Cinzas, prolongando-se até a Quinta-feira Santa, antes da Missa na Ceia do Senhor. Trata-se de um tempo privilegiado de conversão, combate espiritual, jejum e escuta da Palavra de Deus, tudo isto preparando os cristãos para celebrarem santamente a Páscoa do Senhor.

A característica fundamental e indispensável da Quaresma é a renúncia de alimentos e o jejum!

O número de quarenta dias é importantíssimo, pois tem toda uma significação bíblica: da preparação para o encontro com Deus:
os quarenta dias do Dilúvio,
os quarenta dias de Moisés no Monte Sinai,
os quarenta anos de Israel no deserto,
os quarenta dias do caminho de Elias até o Horeb/Sinai
e, sobretudo, os quarenta dias do Senhor Jesus no deserto, preparando Sua vida pública.

É digno de nota que o mesmo Jesus que entrou na penitência dos quarenta dias aparece transfigurado com dois outros penitentes: Moisés e Elias!
Por isso mesmo, o cuidado da Igreja de reservar exatos quarenta dias para a penitência! É tão antigo que tem suas raízes na própria prática da Igreja apostólica.

Na Igreja Antiga este era o tempo no qual os catecúmenos (adultos ou jovens que se preparavam para o Batismo) recebiam os últimos retoques em sua formação para a vida cristã.

Assim, surgiu a Quaresma: tempo no qual os não batizados completam seu catecumenato pela oração a penitência e os ritos próprios, chamados escrutínios e os cristãos, já batizados, pela purificação e a oração, buscam renovar sua conversão batismal para celebrarem na alegria espiritual a Santa Vigília de Páscoa, na madrugada do Domingo da Ressurreição, renovando suas promessas batismais.

Fica claro, portanto, que a finalidade da penitência e do combate quaresmais é conformar-se ao Cristo ressuscitado! A Quaresma tem, portanto, uma finalidade pascal: como um rio desemboca no mar, a Quaresma deve sempre desembocar no júbilo pascal!

Na santa Quaresma, a Igreja inteira, novo Povo de Deus, entra no deserto, como Israel, o Povo da Antiga Aliança.
O tempo quaresmal é tempo de luta, de provação, de combate espiritual!
Assim, a Igreja oferece aos seus filhos armas próprias para esse combate; são as práticas quaresmais. Ei-las:

1. A oração
Neste tempo os cristãos se dedicam mais à oração: aumentam o tempo, a prática, a intensidade. Uma boa prática é rezar diariamente um salmo ou, para os mais generosos, rezar todo o saltério no decorrer dos quarenta dias. Pode-se, também, rezar a Via Sacra às sextas-feiras!

2. A penitência
Todos os dias quaresmais (exceto os domingos!) são dias de penitência. Cada um deve escolher uma pequena prática penitencial para este tempo. Por exemplo: renunciar a um lanche diariamente, ou a uma sobremesa, não comer carne às quartas e sextas-feiras, etc...
A penitência quaresmal deve durar até o Sábado Santo, antes da Vigília Pascal. Aí sim, descontados os domingos, tem-se o exato número de 40 dias de penitência!
Na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa os cristãos jejuam: o jejum nos faz recordar que somos frágeis e que a vida que temos é um dom de Deus, que deve ser vivida em união com Ele. Os mais generosos podem jejuar todas as sextas-feiras da Quaresma. Farão muitíssimo bem!

3. A esmola
Trata-se da caridade fraterna. Este tempo santo deve abrir nosso coração para os irmãos: esmola, capacidade de ajudar, visitar os doentes, aprender a escutar os outros, reconciliar-se com alguém de quem estamos afastados - eis algumas das coisas que se pode fazer neste sentido! “O que a oração pede, o jejum alcança e a esmola recebe. O jejum é a alma da oração, e a esmola é a vida do jejum. Ninguém tente dividi-las porque são inseparáveis. Portanto, quem ora, jejue; e quem jejua, pratique a esmola” (São Pedro Crisólogo – século IV).
É neste contexto que se pensou no Brasil numa Campanha de Fraternidade para este tempo. No entanto, ela não devem nunca desvirtuar, empalidecer ou suplantar o sentido primordial da Quaresma!

4. A meditação da Palavra de Deus
Este é um tempo de escuta mais atenta da Palavra: o homem não vive somente de pão, mas de toda Palavra saída da boca de Deus.
Seria muitíssimo recomendável ler durante este tempo o Livro do Êxodo ou o Deuteronômio ou o Profeta Jeremias ou Oséias ou, ainda, um dos Evangelhos ou a Epístola aos Romanos.

5. A conversão
“Eis o tempo da conversão!”, diz-nos a Escritura Santa. Que cada um veja um vício, um ponto fraco, que o afasta de Cristo, e procure lutar, combatê-lo nesta Quaresma! Os antigos apontavam os sete vícios capitais: a soberba, a avareza, a acédia (preguiça, sobretudo nas coisas de Deus), a ira, a tristeza (sobretudo a inveja, tristeza pelo bem do outro, e a melancolia cultivada e alimentada, que leva à autopiedade e à inércia espiritual), a gula e a luxúria.

Quanto à Liturgia, eis algumas características do período quaresmal:

A cor litúrgica é o roxo - sinal de sobriedade, penitência e conversão;

Não se canta o Glória nas missas (exceto nas solenidades, quando houver;)

Não se canta o "aleluia" (Louvai o Senhor!) que, sinal de alegria e júbilo, somente será cantado outra vez na Páscoa da Ressurreição (isto vale mesmo para as solenidades);

Os cantos da Missa devem ter uma melodia simples; um bom costume que se pode adotar é que o Credo, o Santo, o Pai-nosso e o Cordeiro e as respostas da Oração Eucarística - quando se quiser fazê-las - sejam recitados, não cantados, como expressão de sobriedade;

Os instrumentos musicais, quando utilizados, sejam discretos, mais para sustentar o canto, em sinal de jejum dos nossos ouvidos, que devem ser mais atentos à Palavra de Deus! A voz humana da Assembleia cantando é o louvor mais agradável a Deus!

Não é permitido usar flores nos altares, em sinal de despojamento e penitência (nos casamentos e outras festas, as igrejas devem ser enfeitadas co muita sobriedade!);

A partir da quinta semana da Quaresma podem-se cobrir de roxo ou branco as imagens, em sinal de jejum dos sentidos, sobretudo dos olhos. Onde o costume for cobri-las logo no início da Quaresma, é louvável conservar tal hábito.

Programar-se para uma boa Quaresma

Para bem vivenciar a Quaresma é necessário programar-se.
Faça seu planejamento, colocando numa cartela escrita que observâncias você realizará, com a graça de Deus. Eis o que se deve planejar:

1. Oração - deve-se fazer algo mais nacoracaona oração diária: um salmo ou mais, a via sacra, etc...

2. Penitência - deve-se necessariamente retirar algo do alimento, exceto aos domingos. Também é importante mortificar nossa vontade e nossos sentidos com alguma outra renúncia (a algum hábito, a algo de que se goste...).

3. Esmola - é a caridade fraterna. Um perdão, uma ajuda material ou espiritual, uma aproximação, uma visita, as obras de misericórdia...

4. Vicio a ser combatido - o vício é um mau hábito, que termina por nós impedir de caminhar livremente para o Senhor. Temos vários. Escolha um e procure combatê-lo com firmeza e coragem no tempo quaresmal.

5. Leitura espiritual - escolha um bom livro, quevalimente a fé e o amor ao Senhor, para ler neste tempo.

6. Lectio divina - escolha um livro da Escritura para lê-lo do começo ao fim no período quaresmal. Mais aconselháveis seriam o Êxodo ou o Deuteronômio ou o Evangelho de Marcos.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

VI Domingo Comum: a terrível situação dum morto-vivo!

Lv 13,1-2.44-46
Sl 31
1Cor 10,31 – 11,1
Mc 1,40-45

Para nos guiar na meditação da Palavra de Deus deste hoje, tomemos o Evangelho que acabamos de ouvir. “Um leproso chegou perto de Jesus”. No tempo de Cristo, toda doença na pele que oferecesse perigo de contágio era considerada um tipo de lepra; tornava a pessoa impura. Ouvimos na primeira leitura: “O homem atingido por esse mal andará com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: ‘Impuro! Impuro!’ Durante todo o tempo em que estiver leproso será impuro; e, sendo impuro, deve ficar isolado e morar fora do acampamento”. Eis! É alguém assim que se aproxima de Jesus: ferido, excluído do convívio da Assembleia de Israel, colocado fora da Cidade, um morto-vivo...
Um leproso não podia tocar as pessoas: elas se tornariam impuras como ele; um leproso não convivia com sua família, não podia entrar na Casa do Senhor para rezar com seus irmãos: era um ninguém: “Impuro! Impuro!” – ele gritava, com a barba coberta em sinal de luto e profunda tristeza...

É um homem assim que se aproxima de Jesus; tem a ousadia de chegar junto Dele, sem medo de ser repelido, repreendido, desprezado. E, do fundo de sua miséria, ele suplica: “Se queres, tens o poder de curar-me”. Quanta confiança, quanta esperança! Que oração brotada do mais profundo da dor!
O que fará Jesus? Sua reação é absolutamente inesperada: Ele faz algo que a Lei proibia: “Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: ‘Eu quero: fica curado!’”
Notai, irmãos! O Senhor estendeu a mão, o Senhor tocou o leproso! Não precisava fazê-lo, não deveria fazê-lo! Segundo a Lei, Jesus deveria ficar impuro também, ao menos até o entardecer... Por que tocou o leproso? Não poderia tê-lo curado sem tocá-lo? O próprio Evangelho explica: Ele teve compaixão! Quis estar próximo daquele miserável, quis que ele se sentisse amado, acolhido!
Jesus não nos ama de longe, não vê de modo indiferente a nossa miséria: Ele se faz próximo, Ele nos toca, Ele compartilha nossa dor! Assim Deus faz conosco!
E, para nossa surpresa, ao invés da impureza contagiar Jesus, é Jesus que contagia o leproso com a Sua pureza! Eis! O Reino chegou: em Jesus, Deus vai libertando a humanidade de toda sua lepra, da lepra do seu pecado!
Na ação de Jesus, compreendemos que o amor é mais forte que o egoísmo, que a luz é mais forte que a treva, que o bem é mais forte que o mal, que a graça é mais poderosa que o pecado, que a vida é capaz de vencer a morte! “No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado”. Eis o bem, eis a graça, eis a salvação que o Senhor nos veio trazer! O Profeta Isaías, havia anunciado: “Ele tomou sobre si as nossas dores, Ele carregou-Se com os nossos pecados! Era nossas enfermidades que Ele levava sobre Si, as nossas dores que Ele carregava (Is 53,4-5).
Jesus curou o leproso e o Evangelho diz que Ele “não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos.” Vede bem que, com essa linguagem, o Evangelho deseja afirmar que Cristo, curando o leproso, assumiu o seu lugar: agora, o homem que antes vivia nos lugares desertos, entra na cidade, volta a ser alguém; quanto a Jesus, fica fora, assume o lugar do homem: tomou sobre Si as nossas dores!

Caríssimos, um grande mal da nossa época, uma grande ilusão, é achar que não temos pecado, pensar que somos maduros e integrados. Não somos capazes de reconhecer nossas lepras, somos incapazes de suplicar, de joelhos: “Senhor, se queres, podes curar-me!”
E por que isso? Porque somos autossuficientes: olhamo-nos, examinamo-nos não à luz do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, mas à luz de nós mesmos. Pensamos que somos senhores do bem e do mal, do certo e do errado!
É tão comum vivermos de modo contrário à vontade do Senhor e ainda, cheios de orgulho e soberba, dizermos que estamos certos...
É tão comum querermos moldar Jesus e a sua Palavra à nossa vontade...
É tão frequente a ilusão que podemos jogar na lata do lixo o ensinamento de Cristo, transmitido fielmente da Igreja, sobretudo no campo moral...
E assim, vamos construindo nossa vidinha do nosso modo, modo de pecado, modo de lepra, modo de doença: doença do comodismo, da descrença, da indiferença, da falta de fé!

Reconheçamo-nos pecadores, meus caros! Mostremos ao Senhor a nossa lepra!
Como fazê-lo?
Primeiramente, deixando que Sua Palavra nos fale e nos mostre nossos erros, nossas manhas, nossos males.
Depois, à luz da Palavra do Senhor, façamos, com frequência, o sincero exame de consciência e tenhamos a coragem de olhar de frente o que pensamos, falamos e fazemos contrário ao Senhor.
Finalmente, sinceramente arrependidos, procuremos o Senhor no sacramento da Penitência e, confessando nossos pecados, busquemos o perdão, a cura do Cristo, nosso Deus.
Quantas vezes evitamos a Confissão! Quantas vezes fugimos na tal da Confissão comunitária, desobedecendo às normas da Igreja, que só a permitem em casos raros e graves. A Confissão, então é inválida e acrescentamos aos pecados cometidos, mais estes: a desobediência à norma de Igreja e a soberba de nos julgar autossuficientes.
Deveríamos aprender do Salmista, na Missa de hoje: “Eu confessei, afinal, meu pecado, e minha falta Vos fiz conhecer. Disse: ‘Eu irei confessar meu pecado!’ E perdoastes, Senhor, minha falta!” Mas, não! Teimamos em não levar a sério nosso próprio pecado! Julgamo-nos juízes de Deus e da Igreja! Terminamos, então por comungar indignamente, esquecendo que a Eucaristia, se traz vida para quem a recebe bem, traz também morte para quem não a recebe com as devidas disposições...

Caros meus em Cristo, chega de um cristianismo morno, chega da falta de coragem de nos olharmos de frente!

- Senhor, cura-nos!
Senhor, somos leprosos, somos pecadores, nossos pecados mancham não a nossa pele, mas o nosso coração, o mais profundo da nossa alma!
Senhor, de joelhos, como o leproso do Evangelho, Te suplicamos: cura-nos e seremos curados!
Dá-nos a graça de reconhecer nossos pecados;
reconhecendo-os, dá-nos a coragem e sinceridade de confessá-los;
confessando-os, dá-nos a graça de experimentar teu perdão, de cumprir generosamente a penitência e de procurar com responsabilidade emendar a nossa vida!
Tem piedade de nós, ó Autor da graça e Doador do perdão!

A Ti a glória para sempre! Amém.