domingo, 23 de março de 2014

Retiro quaresmal – A Água que somente o Senhor pode dar

XIX Dia da Quaresma – XVI de penitência

O texto da Escritura Santa que a Igreja hoje nos faz ouvir como primeira leitura (Ex 17,1-7) é tremendo, trágico mesmo!
Comecemos com o versículo primeiro desse capítulo 17 do Êxodo: Israel, recém-saído do Egito, parte para Rafidim, “segundo a ordem do Senhor”. É o Senhor Quem orienta Israel, Quem dita o tempo do caminho e o traçado da estrada... Mas, ali, aonde o Senhor levara “não havia água para o povo beber!” Como o agir do Senhor nos desconcerta, caro Irmão! Como é possível que o Altíssimo leve Seu rebanho para um lugar ermo e seco, onde não há o que é mais essencial à vida: a água?! – Senhor santíssimo, por que ages assim? Por que Teus caminhos nos são tão misteriosos? Por que Teu proceder escapa sempre à nossa lógica, colocando-nos em crise?

Que desastre: milhares de pessoas num deserto áspero, sem ter o que beber! Seria o fim, seria, inexoravelmente, a morte! Coloque-se no lugar de Israel, Irmão! Quantas vezes na vida encontramo-nos em situações extremas, sem saída alguma à vista!... Como é duro!

“O povo discutiu, pois com Moisés, e disse: ‘Dá-nos água para beber!’” Observe bem: o povo discute com Moisés, mas sabe que é o Senhor Quem dirige Israel, é o Senhor Quem guia o caminho. Na verdade, a crítica dos israelitas não é a Moisés, mas a Deus, a desconfiança de Israel é contra Deus! Não adianta discutir com Moisés, acusá-lo; Israel murmura, reclama, sussurra contra Deus!

Tem razão Israel? Humanamente, sim! A situação em que o povo se encontra é contra todo cálculo lógico, contra toda sensatez... Mas, Israel vira o que o Senhor fez no Egito: as pragas, os primogênitos mortos, o Mar aberto... Israel deveria ter guardado o no coração tudo isto; Israel não deveria ter esquecido: “Apenas fica atento a ti mesmo! Presta muita atenção em tua vida, para não esqueceres das coisas que teus olhos viram, e para que elas nunca se apartem do teu coração, em nenhum dia da tua vida!” (Dt 4,9) Esquecer o Senhor e Sua maravilhas, Sua ações em nosso favor – eis o princípio de todo pecado! É verdade que Israel se encontrava em uma situação calamitosa! Mas, não havia sido assim nos quatrocentos anos no Egito? Não havia sido assim às margens do Mar Vermelho? Quando, ó Israel, aprenderás a confiar no Santo, no Altíssimo, na tua Rocha, no Senhor teu Deus?

Irmão, Israel sou eu; Israel é você! Quantas situações na vida são tristes, apertadas, dolorosas, desesperadoras... Mas, o Senhor, quanto já nos deus – a mim e a você – de prova da Sua fidelidade? Israel, não te esqueças! Conserva no teu coração! Não murmures, não alimentes reclamações, dúvidas, queixas, amarguras no teu coração! O Senhor é Santo, o Senhor é Fiel, o Senhor é o Potente, o Senhor é Deus – só o Senhor é Deus no Céu e na terra!

O povo discute com Moisés, murmura, reclama... Como nós fazemos tantas vezes, contra um, contra outro, contra tal situação... “Dá-nos água para beber!” – diz o povo...
Na Escritura Santa, a água simboliza a vida, a bênção de Deus. Não adianta pedir a Moisés o que somente o Santo – bendito seja o Seu Nome! – pode dar! O homem não vive somente de pão, o homem não vive somente da água deste mundo! Só o Senhor dá a Vida, só o Senhor faz jorrar a água vivificante! Quando eu me convencerei disto? Quando você, Irmão, se convencerá disso? “Ah, todos vós que tendes sede, vinda à água! Por que gastais dinheiro com aquilo que não é pão e o produto do vosso trabalho com aquilo que não pode satisfazer? Escutai-Me e vinde a Mim, ouvi-Me e vivereis!” (Is 55,1-3)

Moisés desmascara o povo: é contra Senhor que murmuram, é do Senhor que reclamam, é no Senhor que não creem: “Por que pondes o Senhor à prova?” Moisés vai à raiz, desmascara o falta de fé de Israel! Olhe bem, Irmão: murmurar é por o Senhor à prova! A triste verdade é que muitas vezes não conseguimos enxergar a presença e os apelos de Deus nas situações da nossa existência! Ah, como somos superficiais: vemos a casca, vemos a superfície; não compreendemos com o olhar de fé que existe um Trono no Céu e sobre o Trono Alguém sentado (cf. Ap 4,2), Aquele que tudo tem em Sua mãos benditas, Aquele que leva em Suas mãos a nossa pobre vida e tudo quanto nos acontece!

Irmão, não tentemos o Senhor; não queiramos metê-Lo à prova! Ele não cabe na nossa lógica, Ele não Se submete aos nossos escrutínios: “Não tentarás o Senhor teu Deus!” (Dt 6,16). Ele é o Santo, Ele é Fidelidade, Ele é Amor! O que mais poderíamos querer e esperar Dele?

O povo sedento, desesperado, sem humana perspectiva, ao menos da pura lógica dos filhos de Adão, murmura: “Ali Israel teve sede e o povo murmurou contra Moisés, dizendo: ‘Por que nos fizeste subir do Egito, para nos matar de sede a nós, a nossos filhos e a nossos animais?’” Ah, Israel! Ah, amigo! Não foi Moisés quem tirou o povo do Egito; não foram os teus pais quem fizeram de ti cristão: foi o Senhor! Foi o Senhor – e eu tremo em dizê-lo! – Quem colocou Israel no pavor do deserto; foi o Senhor Quem te fez cristão, com tudo de trabalho e de graça que isto significa! Mal-agradecido, infiel, cego, lento para compreender! Confia no Senhor, ao Senhor, o Santo, o Amoroso, o Previdente, entrega o teu destino! “Confia em Deus e com certeza Ele agirá!” (Sl 37/36,5) Mas, do modo Dele, no tempo Dele, segundo os critérios e propósitos Dele! Ele é teu Deus! Tu te converterás a Ele, não Ele a ti!

Eis uma lição: a murmuração nos faz perder o sentido da fé, a visão de fé! Murmurar contra isto, contra aquilo, contra aquele... Murmuração: o grande pecado de Israel no deserto, nossa tentação: cochichar, reclamar, criticar... Baixinho criticamos, um a um, vamos espalhando nos ouvidos dos outros nossa crítica, nossa amargura, nossa insatisfação... A visão de fé, a perspectiva de quem vê com o olhar de Deus vai desaparecendo... Fica só a visão, a razão, a avaliação carnal, humana, como se Deus não existisse ou estivesse ausente! A murmuração nasce da falta de fé a à falta de fé conduz!

- Misericórdia de mim, Senhor! Piedade de mim, Senhor! Que eu possa ver em tudo e em todas as situações a Tua misteriosa presença! Que eu creia sempre que Tu tudo conduzes nas Tua mãos benditas! Converte-me, ó Salvador, e eu serei convertido!

Vê, Amigo meu: o povo fingi não ver o Senhor; ou, pior ainda, faz como se Deus não existisse: na sua crise, vê somente Moisés e esquece do Santo – bendito seja o Seu Nome! Por isso se amargura, por isso se rebela, por isso se revolta e peca! Moisés mantem-se sereno, consegue ver o Senhor! Que faz ele? “Então, Moisés clamou ao Senhor...” Eis, como é simples: o sem fé murmura; o que tem fé clama ao Senhor, abre-se a Ele, Dele espera a luz, a orientação, a salvação! O povo se fecha na sua lógica, nas suas possibilidades, nos seus cálculos; Moisés se abre ao Eterno, pede-Lhe socorro, espera Sua resposta, procura Sua vontade! Você é assim, Israel, membro da Igreja, novo Povo santo de Deus?

O Senhor manda Moisés ferir a Rocha: “Ferirás a Rocha!” - Oh, que bela imagem, que santa profecia, que emocionante e comovente imagem: “Essa Rocha era Cristo!” (1Cor 10,4); foi Ele traspassado por nós: “Um dos soldados traspassou-Lhe o lado com a lança e imediatamente saiu sangue e água!” (Jo 19,34)! Ajoelha-te, cristão! Contempla, admira-te, adora! Emociono-me ao pensar nisto! Como o Santo é grande, como o Senhor é Imenso! Quanto mistério, quanta sabedoria, quanta presciência! Aquela rocha é tipo, imagem profética do amado e doce Redentor: Ele, ferido na cruz, rasgado como a rocha; Ele, a Rocha, fez brotar do Seu seio ferido, transpassado, a Água da Vida, que é o Seu Santo Espírito: “Do Seu seio correrão rios de água viva!”((Jo 7,37) Ele, o nosso Jesus, o doce Jesus, o amado Jesus, é a Rocha perene que sacia e saciará sempre a sede do Israel da Antiga Aliança e da Nova Aliança: Israel segundo a carne (os judeus) e Israel segundo o Espírito Santo das água do Batismo (a Igreja)!

 Da água da rocha Israel bebeu quarenta anos, pois segundo os rabinos do tempo de Jesus, a rocha acompanhou o Povo durante os quarenta anos do deserto! Cristão lento para compreender! Durante a travessia desta vida – que é um deserto tremendo de incerteza e insegurança – o Senhor Jesus, o Santo, o Altíssimo, o Deus nascido de Deus e Luz gerada da Luz, te acompanha, fazendo sempre jorrar do Seu seio a água do Batismo que te dá o Espírito como Vida nova, e o Sangue da Eucaristia, que te concede o Espírito Eterno no Qual o Filho ofereceu-Se ao Pai em oblação por nós e pelo mundo inteiro (cf. Hb 9,14). Como não se emocionar, como não admirar ao pensar nestas coisas?!

A água correu da rocha, como correu do lado do Salvador, Ele, a Rocha eterna! No Céu, Ele Se encontra de pé, ressuscitado, mas ainda imolado, ferido de lado, de Coração, do qual borbulham a água do Espírito no Batimo e o sangue da Eucaristia! E esta água, que é o Santo Espírito do Senhor, dado pelo Imolado e Ressuscitado, continua correndo, como rio de água viva que continuamente rega a Igreja, Cidade de Deus (cf. Sl 46/45,5). Ah, que o Santo sempre nos vence com Sua bondade, com Sua misericórdia, com sua fidelidade eterna!

Mas, o nome daquele local ficaria para sempre, ficará para todas as gerações, no coração de Israel e da Igreja: Massa e Meriba: provação e contestação, pois ali Israel fez uma pergunta sacrílega, ingrata, infiel: “O Senhor está no meio de nós ou não?”  Que dor para o Coração de Deus: Israel duvidou da presença do Senhor! Israel pensou que o Senhor o abandonaria, que o Senhor não veria sua situação de penúria! Israel pensou que o Senhor poderia esquecê-lo! “Por acaso uma mulher se esquecerá de sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho do seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem, Eu não Me esqueceria de ti. Eu que te gravei nas palmas da mão!” (Is 49,15-16a)

Pensando nesta passagem tremenda do antigo Povo, a Igreja, diariamente, na Liturgia das Horas, exorta os seus filhos, a mim, a você: “Hoje, se ouvirdes a Sua voz, não endureçais o vosso coração, como em Massa e em Meriba, quando vossos pais Me provocaram, apesar de verem as Minhas obras!” (Sal 95/94)
Provação – as mil provações da vida, do caminho! Contestação – ai que dor! A nossa triste e covarde e descrente e velhaca atitude diante do Santo, do Fiel, que entregou por nós o Seu Filho, o Seu Amado!

Convertamo-nos! Piedade, Senhor, porque pecamos contra Ti! Somos duro de coração, desconfiados, prepotentes! Vê, Eterno! Pensamos que podemos saber melhor que Tu o que nos convêm! Tem piedade de nós, loucos, incrédulos, prepotentes! A Ti a justiça, a Ti a glória, a Ti o louvor, a Ti a adoração, a Ti todos os dias e situações da nossa vida, pelo Teu Santo, Bendito, Eterno, Divino e Imaculado Filho, Jesus Cristo, Senhor nosso, que com o Santo Espírito, Água que jorra para a Vida eterna, pelos séculos dos séculos. Amém!



III Domingo da Quaresma: Jesus, o verdadeiro poço donde brota o Espírito da Vida

Ex 17,3-7
Sl 94
Rm 5,1-2.5-8
Jo 4,5-42

A Quaresma é tempo de caminho para a santa Páscoa, Páscoa de Cristo e nossa. Ora, é pelo Batismo e a Eucaristia que entramos misteriosamente na Páscoa do Senhor, no Seu mistério de morte e ressurreição. Por isso celebramos a Noite Santa de Páscoa com o Batismo e a Eucaristia! Pois bem, o Evangelho de hoje é uma belíssima catequese batismal!

Acompanhemos passo a passo este texto de grande beleza. “Chegou uma mulher da Samaria para buscar água”. Essa mulher, essa samaritana, essa pagã, representa os povos não-judeus, os que ainda não conheciam o Deus verdadeiro. Eles vêm, sedentos, procurando uma água que não sacia definitivamente; eles têm de voltar sempre ao poço, buscam saciar a sede de tantos modos, e continuam sempre com sede: “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo”. Consumo, sexo, liberdade desenfreada, droga, poder, dinheiro, facilidades... Nada disso sacia de modo definitivo o nosso coração! Jesus provoca a mulher: “Se conhecêsseis o dom de Deus e Quem é que te pede ‘Dá-Me de beber’, tu mesma Lhe pedirias a Ele, e Ele te daria água viva”. Frase estupenda! O Dom de Deus é o Espírito Santo; é Ele á água que jorra para a Vida eterna, é Ele a própria água de Vida eterna! Em Jo 7,37, Jesus convidou: “Se alguém tem sede, venha a Mim, e beba aquele que crê em Mim”. E o Evangelista recorda que do seio do Messias sairão rios de água viva, o Espírito Santo (cf. Jo 7,38). Eis, que mistério impressionante: o verdadeiro poço não é aquele de Jacó, o poço da Antiga Aliança; o verdadeiro poço é Jesus, Nosso Senhor: Ele dá a Água viva, que é o Santo Espírito, Ele é o poço da Nova e Eterna Aliança! Vede, Irmãos: quem é que pede de beber? O Messias, isto é, o Ungido com o Espírito, o doador do Espírito, água que nos sacia de Vida eterna!

Diante disso, a Samaritana – e nós também – suplica: “Senhor, dá-me dessa água!” Esta água só pode ser recebida no sacramento do Batismo! Como aquele outro pedido: “Senhor, dá-nos deste pão” (Jo 6,34). Eis: Batismo e Eucaristia! É assim que a Vida de Jesus imolado e ressuscitado chega a nós! Mas, não se pode receber o Batismo sem se reconhecer pecador, sem confessar seu pecado e buscar a remissão no Espírito Santo que Jesus dá! Quem não se humilha diante do Senhor, quem não se reconhece pecador, não beberá dessa água! Por isso, Jesus revela o pecado da mulher, toca seu ponto fraco, fá-la reconhecer-se indigna, não para humilhá-la, mas para libertá-la com a verdade: “Vai chamar teu marido!” A mulher era adúltera, com vários maridos, como os pagãos, com seus vários deuses! Jesus, então, revela que os pagãos adoram o que não conhecem, porque “a salvação vem dos judeus!” Interessante o ecumenismo de Jesus: não mascara a verdade, não nega a verdadeira fé, em nome de um falso diálogo! A salvação vem dos judeus, porque é dos judeus que Cristo vem – Ele, o único verdadeiro Salvador, fora do qual não há nem pode haver salvação alguma! Há tanto teólogo sabido esquecendo isso! Por outro lado, Jesus anuncia que o judaísmo vai ser superado: “Está chegando a hora em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e Verdade” e não mais em Jerusalém! Eis: quando Cristo der o Seu Espírito, é nesse Espírito de Verdade, Espírito de Cristo, recebido nas águas do Batismo, que a humanidade encontrará a Deus! Esses são os adoradores que o Pai procura, pois a salvação definitiva vem de Cristo, presente nos sacramentos da Sua Igreja católica, sobretudo no Batismo e na Eucaristia! É Nele que judeus e pagãos são chamados a formar um só povo de verdadeiros adoradores!

Finalmente, o misterioso diálogo de Jesus com os apóstolos: “Tenho um alimento que não conheceis: o Meu alimento é fazer a vontade Daquele que Me enviou e realizar a Sua obra”. O alimento de Jesus é levar o Reino do Pai a todos os povos, judeus e pagãos! É o que Jesus acabara de fazer com a Samaritana... E ela está chamando outros até Jesus. Por isso, Jesus diz: Levantei os olhos e vede os campos: eles estão dourados para a colheita! O ceifeiro já está recebendo o salário e recolhe fruto para a vida eterna! Um é o que semeia, outro o que colhe! O Senhor está semeando para que os Apóstolos colham depois da Páscoa! Mas, a conversão daqueles samaritanos é já um sinal e uma antecipação da colheita da conversão dos pagãos. Vede, caríssimos: nós somos a colheita semeada pelo Senhor com Sua morte e ressurreição! Que consolo: somos fruto do trabalho de Cristo, da encarnação de Cristo, dos cansaços de Cristo, da paixão e morte de Cristo, da ressurreição de Cristo!

Que dizer mais? Por tudo isto, “estamos em paz com Deus por Jesus Cristo”. Porque fomos batizados Nele, vivemos na esperança, pois já experimentamos em nós a Vida eterna, pois “o amor de Deus foi derramado como água em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado!” E tudo isso, graças ao que Cristo semeou com Sua morte, tornando-Se grão que dá fruto para a Vida eterna! Eis que prova de amor tão grande o Pai nos deu! Eis em que consiste o Reino que Jesus veio anunciar e trazer! Eis a obra do Pai, que é o alimento de Jesus!

Assim, na sede do nosso caminho de vida e de Quaresma, olhemos para Jesus, aproximemo-nos Dele, o Rochedo que ferido na cruz, de lado aberto, faz jorrar a água do Espírito para o Seu povo peregrino e sedento. O mundo, tão sedento, procura matar a sede em tantas águas sujas, envenenadas, águas que matam! Que nós matemos nossa sede no Cristo, novo Rochedo, que jorra a água do Espírito, que dura para a Vida eterna! Que Ele alimente nosso caminho quaresmal até a Páscoa da glória! Amém.



segunda-feira, 17 de março de 2014

Retiro quaresmal – A justiça de Deus e a nossa injustiça

XIII Dia da Quaresma – XI de penitência

Mais uma vez a liturgia quaresmal nos apresenta uma oração: aquela de Daniel (cf. Dn 9,4b-10). O Profeta reza pedindo perdão e misericórdia para o povo exilado em Babilônia, distante da Terra Santa, escorraçado da Face do Senhor! Israel perdera tudo: a terra, o Templo, o culto, o Rei descendente de Davi, Jerusalém, a Cidade Santa! Tudo perdido, porque quando se perde a amizade do Senhor, quando se rompe com Ele, tudo o mais que Dele falava, perde o sentido, deixa de ter uma razão de ser... O pecado, Irmão, tem isto de grave, de tremendo, de pavoroso: exila-nos do Senhor, afasta-nos da Sua Face bendita! Mas, viver longe Dele é viver uma vida morta, é vida de morte, vida de perdição! É somente o Senhor Deus a Vida da nossa vida, a Vida que vivifica a nossa existência! Somente a Vida divina (zoé) vivifica de verdade nossa vida biológica (bios) e nossa vida psicológica (psiché)! É a amizade com o Eterno que nos dá a Vida verdadeira!
O pecado nos joga no exílio da morte! "Vê que eu hoje te proponho a Vida e a felicidade, a Morte e a desgraça. Se o teu coração se desviar e não quiseres escutar, eu vos anuncio hoje que certamente perecereis!" (Dt 30,15.17)

A súplica de Daniel antes de tudo reconhece a justiça de Deus: Ele é reto, Seus preceitos são santos, Sua fidelidade é para sempre, Sua misericórdia é sem fim. Mas, Ele é o “Deus grande e terrível”: não se pode brincar com Ele, não se pode desrespeitá-Lo! Não fica impune aquele que se afasta do Senhor, aquele que faz pouco de Seus preceitos! A oração da Daniel acusa o Povo de Israel, não o desculpa, não é cínica, não se mascara com um pretexto falso de misericórdia que esconde a verdade do Senhor!
O Senhor é misericordioso, mas não tolera o pecado e exige a conversão do pecador: “Eu não quero a morte do pecador, mas que ele se converta e viva!” (Ez 33,10).

Não esqueça, Irmão: o perdão que restaura a amizade com o Senhor e dá a Vida divina provém do arrependimento sincero e do propósito de se fazer um caminho de conversão!

Acuse-se a si mesmo diante de Deus, Irmão pecador!
Acusemo-nos: você e eu! Todos precisamos de arrependimento, de perdão!
Bata no peito como o publicano: “Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!” (Lc 18,13)
Lembre: é Deus Quem nos justifica pelo Seu Filho Jesus, por nós morto e ressuscitado! quão alto, quão caro o preço da nossa justificação; precisamente porque, sozinhos, não nos podemos justificar!
Nós, se ousarmos querer nos justificar diante Dele, como o fariseu, nunca seremos justificados!
Estejamos atentos às palavras do Salmista (cf. Sl 32/31):

“Feliz o homem cuja ofensa é absolvida, cujo pecado é coberto.
Feliz o homem a quem o Senhor não atribui seu erro, e em cujo espírito não há fraude!
Enquanto calei, meus ossos se consumiam, o dia todo rugindo, porque dia e noite a Tua mão pesava sobre mim;
meu coração tornou-se um feixe de palha em pleno calor do verão.
Confessei a Ti meu pecado, e meu erro não Te encobri;
eu disse: ‘Vou ao Senhor, confessar meu pecado!’
E Tu absolveste o meu erro, perdoaste o meu pecado!”

Atenção para a advertência do Senhor, o Santo de Israel, o mesmo Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo:

“Vou instruir-te, indicando-te o caminho a seguir,
com os olhos sobre ti, Eu serei teu conselheiro.
Não sejas como o cavalo ou o jumento,
que não compreende nem rédea nem freio!”

Hoje, quando o homem se julga o centro de tudo, já não mais aceita submeter-se ao juízo de Deus, mas arvora-se em senhor do bem e do mal, subvertendo até mesmo os preceitos do Senhor Deus!
No entanto, o Santo adverte:
“Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem mal,
dos que transformam as trevas em luz e a luz em trevas,
dos que mudam o amargo em doce e o doce em amargo!
Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos e inteligentes na sua própria opinião!
Com efeito, eles rejeitaram a lei do Senhor dos Exércitos, desprezaram a palavra do Santo de Israel!” (Is 5,20-21.24b)

Irmão, o centro não sou eu,
não é você,
não é o homem,
esse que veio do pó, e, deixado a si próprio, ao pó voltará!
O centro é Deus, que nos salva, por misericórdia, em Jesus Cristo!

Quão triste alguém, de tão cego, de tão torpe, de tão presunçoso, acusar o Altíssimo, impugnar o preceito do Senhor para se justificar a si próprio!
Que miséria, o homem querer converter o Senhor a si próprio, ao invés de se converter ele, pó que o vento leva, ao Senhor, o Deus Vivo e Vivificador!
“Raça de víboras! Quem vos ensinou a escapar da ira que está para vir? Produzi fruto digno de arrependimento e não penseis que basta dizer: ‘Temos por pai a Abraão!’” (Mt 3,7s)

Cuidado, Irmão!
Que não juntemos ao pecado o cinismo
à fraqueza, a impenitência,
à queda, a desculpa esfarrapada que procura a própria justificação em si mesmo!

Repitamos hoje, você e eu, as palavras da Igreja de Rito Bizantino, que suplica, humilde e realista, esperançosa e confiante:

“Ó Salvador, não desprezes o Teu servo,
cativo da preguiça e do pecado,
mas desperta meu coração para a penitência;
faze de mim, Senhor, um trabalhador da Tua vinha,
dando-me o salário da décima primeira hora
e a graça da salvação!”

Sim! O Senhor nos livre da preguiça de não querer reconhecer nosso pecado, preguiça de deitar-se na nossa pecaminosidade, fazendo de conta que não estamos pecando!
Que o Senhor desperte nosso coração para a penitência, isto é, a conversão!
Que Ele, sem merecermos, nos dê o salário dos operários que chegaram por último e, por misericórdia, receberam o prêmio gratuito de quem trabalhou o dia inteiro!

Pense nisto, Irmão!
Reconheça o seu pecado, Amigo!

Confesse-o pelo Sacramento da Penitência,
ó pecador amado por Deus!


domingo, 16 de março de 2014

Considerai Jesus!

"Meus santos Irmãos e companheiros da vocação celeste, considerai atentamente Jesus, o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa profissão de fé!" (Hb 3,1)

Eis, que belo conselho particularmente para estes dias quaresmais, que desembocarão na Santa Semana da Paixão, Morte e Ressurreição do Salvador!

Considerar atentamente Jesus! - Este deveria ser nosso estudo, esta, nossa meditação constante, esta nossa ciência, nossa sabedoria! Considerar Jesus, aprender Dele, ter os sentimentos Dele, reproduzir em nós a Sua vida bendita!

Ele, o Apóstolo, isto é, o Enviado do Pai; Imagem, Ícone, Rosto do Deus invisível! Ele Palavra do Pai, Palavra feita carne, feita sorriso, feita abraço, feita entrega dolorosa, concreta, na Cruz! Ele, o Obediente até a morte e morte de Cruz!

Jesus, o Sumo Sacerdote da nossa fé! Como Deus, dá-nos a Vida divina; como homem, apresenta-Se diante do Pai, imolado e ressuscitado, com o Seu eterno, perene sacrifício, intercedendo continuamente por nós!

Considerai, Irmãos, Jesus Apóstolo da nossa fé! Considerai, Irmãos, Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote, razão da nossa certeza, certeza da nossa esperança!

Seja esta Quaresma ocasião para crescer no conhecimento amoroso de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo! Quem não o conhece, não permanecerá na fé, quem não é seu amigo, não subsistirá, quem não une seu coração ao Dele vai esmorecer...

"Irmãos, considerai atentamente Jesus!"