sexta-feira, 7 de março de 2014

Retiro Quaresmal – Procurar o Senhor verdadeiramente

3o. Dia da Quaresma – III dia de penitência


“Assim fala o Senhor: ‘Grita forte, sem cessar, levanta a voz como trombeta e denuncia os crimes  do meu povo! Buscam-Me cada dia e desejam conhecer Meus propósitos, como gente que pratica a justiça e não abandonou a Lei de Deus’” (Is 58,1-2).

Ainda alertas para o início da Quaresma...

O Senhor acusa o Seu povo, acusa duramente para salvá-lo, abrindo-lhe os olhos, a consciência e o coração.
Nestes dias entre as Cinzas e o Primeiro Domingo, deveríamos realmente nos deixar ferir pela consciência de que somos pecadores, de que nem tudo na nossa vida cristã vai bem! Bastaria olhar para o Senhor Jesus Cristo... Diante do Seu amor crucificado, quem pode se considerar justo diante de Deus? Quem pode dizer-se em dia, em ordem com o Senhor?

Mas, vamos ao ponto que gostaria de salientar neste terceiro dia da Quaresma: observe bem o versículo acima, da primeira leitura da Missa de hoje... O Senhor diz que o povo O procura e deseja conhecer os desígnios Seus... E, no entanto, chama esse mesmo povo de criminoso! E por quê? Porque se trata de uma busca de Deus descomprometida, sem real e verdadeiro empenho em colocar-se na obediência da fé, no caminho de converter a vida à vontade do Senhor, aos Seus santos preceitos!

Seria um grave erro pensar numa vivência religiosa reduzida a boas intenções, a sentimentos de amor a Deus, a devoções e orações “gostosas”, sem o  empenho real na conversão de vida! Se a vida do cristão possui uma dimensão propriamente mística, da intimidade saborosa com o Senhor, a própria mística, para ser concreta e verdadeira, exige a ascese, o exercício na prática da correção de nossos vícios, de nossos pedaços ruins, o exercício na prática da virtude e das boas obras.

É parte integrante, indispensável do nosso caminho com o Senhor a disciplina interior, a sincera procura de superar tudo quanto em nós esteja em desacordo com os preceitos do Altíssimo. O próprio Jesus foi claro, unindo o amor a Si e a prática efetiva dos Seus preceitos: “Se alguém Me ama, guardará Minha palavra e Meu Pai o amará” (Jo 14,23). Por mais que nosso tempo deseje adocicar e domesticar o Senhor, criando a ilusão de um deus bonzinho, bem ao gosto do mundo, um deus convertido a nós, do nosso tamanho, o Deus verdadeiro nos repreende e exige de nós conversão a Ele!

Conversão a Ele!
Aprender a sentir como Ele,
Pensar como Ele,
Avaliar como Ele,
Ver como Ele,
Agir como Ele.

Como fazer isto? Como conseguir tal desiderato?
Colocando nossa vida nos caminhos Dele, na vontade Dele, em inteira obediência que nasce da fé amorosa, de modo que o Senhor Se torne o critério, a verdade, a orientação, o alicerce de nossa existência!

Mas, veja só, Irmão, que viver assim é viver em êxodo de si mesmo! Aquele que verdadeiramente leva o Senhor a sério deve viver saindo sempre de si próprio do seu jeito para ir para si mesmo do jeito de Jesus. Vou repetir: é Ele o critério, é Ele a medida, é Ele a verdade do mundo, da vida, da humanidade, da minha vida!

Perguntemo-nos hoje:
Qual o critério dos meus valores e dos meus modos de pensar: Cristo ou o mundo? O Senhor ou eu mesmo?

Minha busca pelo Senhor e Sua santa vontade é concreta ou, ao invés, é um autoengano, pois sou apegado a mim mesmo, aos meus interesses e à minha comodidade de vida e de costumes, mesmo que estes sejam contrários ao Evangelho?

O que eu desejo: converter-me a Cristo ou dobrar Cristo ao meu capricho, à minha medida?

Reze, Irmão, pedindo ao Senhor a graça de ver com os Seus olhos e sentir com o Seu coração para ser verdadeiramente discípulo! Que graça tão grande: ser discípulo de Nosso Senhor Jesus Cristo! Pense nisto!



quinta-feira, 6 de março de 2014

Retiro quaresmal – O caminho a escolher

Logo no primeiro dia após as cinzas que nos introduziram na Santa Quaresma, o Senhor nos interpela – a cada um de nós, a mim, a você... Interpela à Igreja toda inteira: “Vê que Eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça!”

Que palavras impressionantes! Que escolha de fogo!
“Eu te proponho hoje!”
Não é no passado que se decide a salvação, não é no futuro que se encontra a nossa resposta ao Eterno! É hoje, é agora! No agora da nossa vida, no aqui que estamos vivendo!

Irmão, olhe para você, olhe ao redor de você, observe bem o seu coração:
Agora, nas sua situação presente, nas suas relações, nos desafios que você está enfrentando, nas lutas que está travando...
Aqui, agora o Eterno entra no tempo da sua vida, o Infinito penetra no minúsculo da sua existência e desafia:
“Vê que Eu hoje te proponho!” Hoje, agora, na tua vida!

E a proposta aponta somente para duas opções:
Vida ou morte, felicidade ou desgraça!

Que vida? A Vida da amizade com Deus, a Vida que enche o coração de paz, venha o que vier, a Vida que dá um sentido à vida, que dá a certeza de que viver vale a pena, aconteça o que acontecer!
Que morte? A morte de um coração que já não percebe a razão última do existir, a morte de viver por viver, viver preso simplesmente nesta vida, com seus fragmentos, suas migalhas... Vidinha, cheia de bugigangas, de entretimentos, cheia de bagulhos, de pequenas realizaçõezinhas... Mas que não enchem o coração, levam a nada, dão no nada...

Mas, como escolher a Vida?
Obedecendo aos preceitos do Senhor teu Deus,
Amando o Senhor teu Deus
Seguindo os Seus caminhos,
Guardando Seus mandamentos,
Apegando-te a Ele!

Que expressões belas: amar, apegar-se ao Senhor!
Amamos tanta coisa que não mereceria ser amada, apegamo-nos a tantas coisas e pessoas que nunca preencherão nosso coração... E fazemos dessas coisas, dessas pessoas deuses estranhos, ídolos miseráveis, que nos iludem, nos escravizam e expulsam a doce presença do Deus verdadeiro de dentro de nós. E, no entanto, é Ele a paz, é Ele a alegria, é Ele a Vida que preenche a vida!

Irmão, eis a morte:
Desviar o coração do Senhor, Dele se afastando, Dele se escondendo,
Não escutá-Lo de verdade, mas seguir somente a própria razão e as razões do mundo,
Encher o coração de ídolos, a eles se apegando...
Assim, ainda que vivamos, estaremos mortos numa vida oca, vazia, sem sentido... Nosso riso seria um triste riso vazio, quase que para encobrir a falta de sentido, o desespero de uma vida besta...

Neste primeiro dia após as Cinzas do arrependimento,
Decida o caminho da Quaresma e da vida:
Irá você abrir-se? Irá você escutar o Senhor nestes dias? Irá realmente trabalhar na sua conversão?

“Tomo hoje o céu e a terra como testemunha  contra vós, de que vos propus a Vida e a morte, a bênção e maldição!”
Escolhe, pois a Vida, o Senhor, o Eterno, o Santo, o Bendito,
Para que vivas!

Pense bem nestas coisas, prepare-se bem para os santos dias que virão!

Esteja de coração aberto para o Senhor! Amém.


quarta-feira, 5 de março de 2014

Retiro Quaresmal - "Voltai para o Senhor! Rasgai o coração!"

Logo no início deste santo tempo de preparação para a Páscoa sagrada, o Senhor nos dirige Seu apelo, Sua advertência, pela boca do Profeta Joel:

“Voltai a Mim com todo o vosso coração! Rasgai o coração e não as vestes!”

Eis! O coração é o núcleo da pessoa, é o lugar onde ele diz “eu” e onde pode pronunciar ao Senhor “Tu”. Rasgar o coração é abrir-se, rasgar o coração é, de verdade, arrepender-se, colocando-se diante do Senhor Deus.

Mas, como é possível arrepender-se de verdade? Como poderemos nós, presos tantas vezes nos nossos interesses e egoísmos, tão ocupados de nós mesmos, reconhecer que somos deficientes diante do Senhor, reconhecer com sincera dor que somos pecadores e necessitamos de conversão? Isto somente nos será possível se o Altíssimo nos converter!

Por isso mesmo, a longa série das leituras do santo tempo da Quaresma começa com um apelo do Senhor: “Voltai a Mim com todo o vosso coração, com todo o vosso ser, com a inteireza toda da vossa vida, sem deixardes de fora um aspecto que seja! Quero-vos totalmente, totalmente para Mim! Sou um Deus ciumento!” - Ah, Senhor, se Tu nos chamas no profundo do coração, converter-nos-ás! Voltaremos, pesarosos, sinceros, a Ti e seremos salvos!

“Voltai!” Mudai de direção, mudai o rumo de vossa vida, o vosso modo de pensar, de agir, de julgar! Voltai para Mim! Fazei de Mim o critério, a referência, o Tudo da vossa vida!

Vede, Irmãos, que o Senhor nos deseja, faz questão do nosso amor, chama-nos a Ele! No início deste santo período, reconhece tu, reconheça eu o quando ando disperso, distante do Senhor! Reconheça eu que preciso voltar!

Compreendamos nós que a volta é urgente: para que ela fosse possível, o Senhor Deus entregou o Seu Único, o Amado: “Aquele que não cometeu pecado algum, Deus O fez pecado, isto é, fê-Lo vítima pelo pecado, por nós, para que Nele nós nos tornemos justiça de Deus”, isto é, retos diante do Senhor! Tu crês que Jesus é o Messias, o Deus feito homem por ti e pela humanidade? Crês que por ti e pela inteira criação Ele Se entregou à morte de cruz? Crês que o Pai tanto amou o mundo que entregou o Seu Amado Filho? Então, pensa na gravidade do pecado, na grandeza do amor de Deus por ti, na urgência da voltar para Ele!

Volta para o Senhor, reconhece neste Tempo que ora se inicia uma chance da misericórdia divina! “Como colaboradores de Cristo, nós vos exortamos a não receberdes em vão a graça de Deus! É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação! Deixai-vos reconciliar com Deus”, esse Deus que vem a vós, que vos clama, que vos atrai porque vos ama e faz conta de vós e de vós tem ciúme de eternidade!

Neste início de Quaresma toma as armas:
o que tirará da comida durante os quarenta dias de penitência?
-  - o que acrescentarás à oração?
-  - o que fará de prática de caridade para com teu próximo?
- - que Livro da Escritura Santa lerás do início ao fim neste período?
-   - que vício, que mau hábito  combaterás na tua vida?

Eis as práticas, eis a justiça, eis a obra piedosa da Quaresma! Faze-a de coração contrito, faze-a com humildade, combate com coragem o combate da fé! Deixa de covardia! “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça diante dos homens, só para serdes vistos por eles! Caso contrário não recebereis a recompensa diante do vosso Pai que está nos Céus!”

Caro Irmão, faça seu plano de Quaresma, com especial atenção ao vício que você escolherá para combater!
Vamos! Comecemos o caminho para a Terra Prometida da Páscoa!



Retiro Quaresmal - Introdução

A Igreja de Cristo é santa, só santa, indefectivelmente santa.
É santa e pecadora? Não! De modo algum! Por ser corpo de Cristo e templo do Espírito, o Santo que a tudo santifica, ela não pode, na sua essência ser santa e pecadora.
Mas, nos seus filhos, que já foram santificados desde o Batismo, mas também são chamados a serem santos, a viver realmente aquilo que são (cf. 1Cor 1,2), a nossa Mãe católica precisará sempre de contínua purificação.

Eis, para isto, o privilegiado tempo da Quaresma!
A Igreja, com seu coração e sua mente, deve retornar aos dias de Israel no deserto. Como o Antigo Povo de Deus, nós, membros do Povo de Deus da Nova Aliança, devemos nos colocar a caminho pelo deserto quaresmal e fazer, à luz da experiência de Israel, um profundo exame de consciência.

Na Quaresma, a Igreja deve converter-se novamente ao Senhor; também cada um de nós, membros desse Povo santo deve também trilhar o caminho da conversão.

Para ajudá-lo, caro Irmão, proporei a cada dia quaresmal uma meditação partindo da Palavra de Deus proclamada na Missa diária. Será mais um retiro quaresmal, como outros que já apresentei em anos passados.

Gostaria, logo de início, de propor-lhe um programa quaresmal. Eis: escolha logo hoje as observâncias que você, diante do Senhor, deseja praticar, utilizando as armas espirituais para o combate quaresmal; afinal, entrar num combate, em pleno deserto, sem armas é ser candidato certo à derrota mais vergonhosa! Então, o que você fará quanto a estas observâncias?

1. Oração – Escolha algo mais a acrescentar à sua oração diária. Pode ser, por exemplo, três salmos por dia, em ordem seguida, contínua. Assim, ao cabo da Quaresma, terá rezado todo o saltério! Que bênção! Pode ser a via-sacra às quartas e sextas...

2. Penitência – Deve ser uma penitência na comida. Tira-se algo do que se gosta durante toda a Quaresma, até o Sábado Santo. São quarenta dias de penitência na alimentação. Às sextas-feiras, elimina-se também a carne. Aos Domingos nunca se faz penitência: é Dia da Ressurreição, sempre! O tempo quaresmal já desconta quarenta dias sem os domingos... Além da penitência no alimento, é importante fazer alguma mortificação: tirar algo do tempo da televisão, das conversas fúteis, do tempo perdido diante do computador...

3. Esmola – É a caridade fraterna. Deve-se escolher um gesto que se faça durante toda a Quaresma em benefício dos irmãos. Pode ser uma esmola, uma ajuda, uma visita, a mudança de atitude e comportamento, a reconciliação alguém... Onde está o teu irmão?

4. Leitura da Palavra de Deus – Diariamente deve-se reservar um tempo para a meditação da Palavra de Deus. Podem-se usar os textos da Missa diária ou ler de modo seguido os capítulos do Êxodo ou do Deuteronômio.

5. O combate a um vício – Vício é um mau hábito que se aninha no nosso coração. Escolha um desses seus vícios e procure combatê-lo pacientemente, com a ajuda de Deus, neste tempo quaresmal.

E então, meu Irmão, membro ferido e caminhante do Povo de Deus? Vamos adiante, vamos caminhar no deserto quaresmal rumo à Terra Prometida da Páscoa do Senhor! Lembre-se: sem vivência quaresmal não há real e frutuosa celebração da Santa Páscoa!

Boa Quaresma! Bom retiro quaresmal, para você que for me acompanhar!